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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

007 - linguagem do corpo - cristina cairo

Este texto complementa o que eu disse no post [115MH1 - em busca da felicidade] ao propor uma mudança de percepção, do quanto odiamos simplesmente porque nos parece natural agir assim. Um dos meios de se livrar desta maldição é:

O perdão é a forma de provar a si mesmo que as emoções negativas estão sob o seu controle e que você conhece seu próprio potencial para conquistar novos caminhos. Com esse desprendimento e com essa confiança em si mesmo, você poderá ”soltar” de sua mente os acontecimentos desagradáveis, pois na verdade tudo que vivenciamos faz parte do nosso crescimento e nos impulsiona a compreender os sentimentos das outras pessoas. Ninguém nos agride, nos trai, nos abandona ou nos rouba, sem que tenhamos, consciente ou inconscientemente, provocado tais comportamentos.

Mesmo em se tratando de acontecimentos vindos de pessoas estranhas, nosso poder de atração é o responsável por isso. Saiba que existem duas leis no Universo, sem as quais não haveria ordem planetária no sistema solar nem no ecossistema e tudo seria o caos: os semelhantes se atraem e Lei da compensação.

A primeira reação de quem recebe essa informação é de incredulidade, pois é difícil entender como podemos ”ser semelhantes” às pessoas que nos fazem mal.

Sempre temos algo em comum com quem nos faz infeliz. Se abandonarmos o sentimento de vergonha, os preconceitos e o orgulho, encontraremos estreitos laços com esses acontecimentos ou com essas pessoas. Temos sempre, guardado na manga, um pensamento que achamos incorreto, mas que nunca ”mostramos”, seja devido aos padrões morais ou sociais, ou, até mesmo, profissionais. Isso nos torna inconscientes do que realmente sentimos em relação a nós mesmos. Constantemente submetidos a opiniões externas, passamos a enxergar somente o que está do lado de fora de nossa personalidade. Portanto, conheça‐se melhor antes de negar a verdade que se esconde por trás do medo de não estar sendo bom ou perfeito com os outros ou com você mesmo.

Aprenda a se conhecer sob todos os aspectos aceitando, com a maior naturalidade, as alegrias e as tristezas. Isso o ajudará a corrigir o ”leme” de seus pensamentos, afastando, cada vez mais, os ”semelhantes desagradáveis” da sua vida. Antes de mais nada, perdoe‐se e você verá como será fácil perdoar aos outros.

Sempre que guardamos mágoas, ressentimentos, ódio, etc., mais cedo ou mais tarde, somatizamos uma doença para justificar a perda de energia que tivemos, devido à situação provocada por aqueles sentimentos.

Perdoar verdadeiramente é questão de inteligência!

Quando a doença não desaparece, nós sabemos que a pessoa não perdoou. Quando você ”achar” que perdoou, desconfie de você mesmo e volte, conscientemente, àquela situação que causou a mágoa. Se você ignorar o acontecimento e olhar a outra pessoa com carinho e bondade, sentindo o coração livre e com esperanças renovadas, saiba, então, que você perdoou verdadeiramente.

De nada adiantará rezar e suplicar pela cura se seu coração está bloqueando a energia vital, mantendo vibrações opostas ao bem.

A vibração do amor de Deus depende da vibração que você emana. Portanto, se você não conseguir tornar seus sentimentos livres das emoções negativas, sua vida estará presa a um círculo vicioso. Raiva e mágoa são como um muro alto que esconde o sol de nossa casa! Assim são nossos sentimentos passados. Livre‐se deles e, com certeza, sua saúde voltará a brilhar.

Doença não existe! Saúde é o estado normal das pessoas!

Doença é apenas uma nuvem de mau tempo dentro de sua cabeça que perdura enquanto perdurar sua mágoa, seu ódio, seu medo, etc. Aprenda a aprender com a vida. É nela que você pode criar e recriar. Brinque com o destino. Faça como as crianças que vivem aquilo que imaginam como se fosse real. Dê a si mesmo o direito de sonhar: o pensamento é força criadora. Crie um mundo melhor para você, perdoando a tudo e a todos. ”Solte” o passado de uma vez para não deixar seu futuro ser um constante passado sem expressão e sem mudanças.

A vida nova só existe quando o passado é esquecido. Se você não sabe perdoar, também não é digno da saúde que procura!
Na Bíblia está escrito.‐ ”Perdoa setenta vezes sete”.


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

006 - cavalo de tróia vi - J.J. Benítez

De todos os livros que li sobre Jesus, na maioria não canônicos, esta ficção superou as demais e esta cena em particular nunca saiu da minha mente. Talvez todos nós quiséssemos que ele fosse assim, talvez até saibamos que é exatamente assim, só não queremos admitir.

 
Concluídas as tarefas, o Mestre consultou o sol. Devia ser a "décima" (quatro da tarde). Faltavam, pois, pouco mais de duas horas para o anoitecer. E ele, atento e solícito, perguntou:

 —  Que tal um banho antes do jantar?

Um banho A dois mil metros de altitude! Meu irmão, entusiasmado, concordou no mesmo instante. E Ele, com um gesto da mão esquerda nos convidou a segui-lo. Como eu dizia, ainda não tínhamos visto tudo...

O Galileu cruzou a esplanada, adentrando no breve arvoredo do referido flanco leste. Do outro lado nos esperava uma surpresa não menos reconfortante.

As cascatas!

Acho que foi normal. Eram muitas emoções para lembrar alguma coisa tão insignificante como as repetidas alusões dos montanheses àquele "pouco recomendável lugar"! Espero voltar a falar disso, mas, francamente, a presença do Filho do Homem me mantinha - nos mantinha - meio hipnotizados.

Bem à margem dos cedros aparecia o esquecido nahal Hermon. Descia dos cumes nevados, e o fazia espumoso, irritado e queixoso. Na altura da meseta, cerca de cinco ou seis metros debaixo dos nossos pés, o terreno se escalonava, forçando a torrente a saltar. Resultado: duas cascatas brancas e barulhentas de mais de dois metros de altura cada uma. E entre ambas, uma espaçosa e mansa "piscina", de águas frias e transparentes. Um amarelado anfiteatro rochoso de gesso cenozoico, magistralmente desenhado pela Natureza, ocupava parte da "piscina" refreando o ímpeto do nahal. O rochedo acompanhava a corrente, formando uma segunda ilhota ao pé da última cascata.

Daquele momento em diante, para Eliseu e para este que escreve, esse remanso seria batizado de a "piscina de gesso". Diante de nós, erguendo-se para a dita "piscina", desafiando os cedros, vigiava uma solitária patrulha de carvalhos. E entre o mini arvoredo, alguns salgueiros e os inevitáveis círculos de adelfas.

Dito e feito.

O Mestre, alvoroçado, tirou a túnica e as sandálias e, de um salto mergulhou de cabeça nas águas, provocando a precipitada fuga de dezenas de inquilinos do carvalhal: "nectarinas" de cabeças e peitos violetas, "trigueiros" de orelha negra e cauda branca e tímidos "carpinteiros" sírios, entre outros.

Eliseu, nervoso, tirou a roupa como pôde e, sem vacilar, seguiu o exemplo de Jesus de Nazaré. Eu, sem acreditar no que estava vendo, fui me sentar na beira da "piscina", para contemplá-los.

O Mestre nadando!

Podia parecer coisa infantil. Não sei... Mas não importa. Para mim, aquele Jesus era novo. Diferente. Tão próximo e natural...

Ele dava braçadas ágeis, com força. Parava. Inspirava e desaparecia sob as águas. Procurara o engenheiro. Pegava-o pelas pernas e, como se fosse uma pena, o levantava sobre a superfície e o deixava cair. Risadas. Eliseu, desconcertado, se recuperava e, sem delongas, perseguia o Mestre. Apoiava-se nos brilhantes e musculosos ombros e tentava afundá-lo. Impossível. O Filho do Homem era uma rocha. Ele se esquivava. Chapinhava. E entre gargalhadas, terminava afundando de novo o pobre Eliseu...

Não sei quanto tempo fiquei ali em cima, atônito... e feliz. Sim, essa era a palavra exata: feliz.
De repente, porém, eu vi os dois cochichando. E, em silêncio, deslocaram-se na direção deste que aqui escreve. Os dois exibiam um suspeito sorriso de cumplicidade.

Fiquei de pé e, entendendo as más intenções, pedi calma. Tirei a roupa na maior velocidade e, antes de ser pego por aqueles maravilhosos "loucos", pulei na "piscina". Quando consegui voltar à superfície, quatro poderosas mãos me agarraram e me afundaram.

E como três crianças, sem deixar de rir, perseguindo-nos uns aos outros prolongamos assim aquele primeiro e inesquecível banho aos pés do Hermon.

Nunca, nunca poderei esquecer aquilo.

Uma hora depois, esgotados, nos reunimos ao pé dos cedros.

O Mestre soltou seus cabelos e foi se sentar na frente destes esbaforidos exploradores. O sol, se despedindo, roçando o horizonte azul e ondulado dos bosques, começou a vestir e a preparar para a noite os cumes nevados. E fez isso devagar, respeitoso, com dedos cor de laranja.

Jesus inspirou profundamente e jogou a cabeça para trás. Depois, fechando os olhos, permaneceu num longo e majestoso silêncio. Algumas gotas, irreverentes, escorregaram pelas têmporas, caindo sobre o tórax bronzeado, largo e descontraído.

Outra vez fiquei surpreso. Enquanto nossos corações bombeavam agitados, Ele, impassível, mal erguia a caixa torácica. Sua capacidade de recuperação era assombrosa. De repente, sem aviso prévio, o sempre sincero e espontâneo engenheiro formulou uma pergunta. Uma questão que nos rondava e atormentava muito antes de chegar à sua presença. 

Eliseu, como de costume, teve mais coragem do que eu...

— Senhor, o que fazes aqui?

Na hora, o Galileu não respondeu. Continuou com os olhos fechados, alheio a tudo e a todos. Achei que não queria falar. E fulminei meu companheiro com o olhar. Eliseu, desolado, baixou a cabeça.

— Não, Jasão —  interveio o Mestre, me pegando de surpresa -, não repreendas teu irmão porque, como tu, ele anseia saber a verdade...

Era impossível. Eu não conseguia me acostumar. Como ele fazia isso? Como podia "ver" ou "ler" os corações? Se tinha os olhos fechados, como pôde...

Endireitou o rosto e, me atravessando com aquele olhar, de novo me pegou na curva:
— Por que agora, querido Jasão, finalmente, recuperei o que é meu...

E virando-se para o espantado Eliseu, com seu melhor sorriso, acrescentou:

— Amigo, fazes bem em perguntar. Para isso estais aqui. Para dar conta e dar fé do que sou e do que deseja meu Pai... Vosso Pai.

Pedi desculpas ao meu companheiro e, esquecido o leve incidente, Eliseu, vibrante, voltou sua atenção ao Rabi, reformulando a questão inicial.

— Vieste ao Hermon para procurar alguma coisa que havias perdido?

O Mestre, encantado com a transparência daquele homem, o fitou durante alguns segundos. Seus olhos brilharam e um sorriso quase imperceptível derramou-se por seu rosto, chegando até nós.

E voltou a nos desconcertar.

— Excelente pergunta. Depois do jantar, não deixes de me lembrar essa questão.

Deu uma piscada para Eliseu e, de um pulo, como um atleta, ficou em pé. Recolheu suas coisas e, decidido, cantarolando, voltou ao mahaneh. E estes exploradores e um Hermon definitivamente cor de laranja ficamos em suspense. 

 Assim era aquele Homem...



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

005 - sidarta - Hermann Hesse

Sidarta (Hermann Hesse, 1922)
Assim todos amavam Sidarta. A todos causava ele alegrias. Para todos, era fonte de prazer. Mas a si mesmo, Sidarta não se dava alegria. Para si, não era nenhuma fonte de prazer. Enquanto passeava pelas sendas rosadas do figueiredo, enquanto se mantinha sentado na penumbra azulada do bosque da contemplação, enquanto abluía ò corpo no cotidiano banho expiatório, ou fazia sacrifícios rituais no mangueiral envolto em sombras profundas, fazendo gestos de primorosa correção, despertando amor em toda gente, deliciando a todos, não sentia, ainda assim, nenhuma satisfação em sua própria alma. Visões acometiam-no e também pensamentos irrequietos, brotados das águas do rio, a falsearem nos astros da noite, a fundirem-se sob os raios do sol. Devaneios assomavam-lhe aos olhos. O desassossego do coração invadia-o, vindo da fumaça dos sacrifícios, do som assoprado dos versos do Rig-veda, dos ensinamentos dos brâmanes anciãos.
Sidarta começava a abrigar em suas entranhas o descontentamento. Começava a sentir que nem o amor do pai, nem o da mãe, nem tampouco o do dedicado Govinda teriam sempre e a cada momento a força de alegrá-lo, de tranquilizá-lo, de nutri-lo, de bastar-]he. Começava a vislumbrar que seu venerando pai e seus demais mestres, aqueles sábios brâmanes, já lhe haviam comunicado a maior e a melhor parte dos seus conhecimentos: começava a perceber que eles tinham derramado a plenitude do que possuíam no receptáculo acolhedor que ele trazia em seu íntimo. E esse receptáculo não estava cheio; o espírito continuava insatisfeito; a alma andava inquieta; o coração não se sentia saciado. As abluções, por proveitosas que fossem, eram apenas água; não tiravam dele o pecado; não curavam a sede do espírito; não aliviavam a angústia do coração.

Excelentes eram os sacrifícios e as invocações dos deuses — mas que lhe adiantava tudo isso? Propiciariam os sacrifícios a felicidade? E quanto aos deuses: foi realmente Prajapati quem criou o mundo? E não o Átman? Ele, o único, o indivisível? Não eram os deuses figuras criadas da mesma forma que tu e eu, perecíveis, dependentes do tempo? Seria, portanto, bom e acertado, oferecer sacrifícios aos deuses? Era isso realmente uma atividade sensata, sublime? Quem merecia imolações e reverência, senão Ele, o único, o Átman? E onde se podia encontrar o Átman, onde morava Ele, onde pulsava o Seu eterno coração, onde, a não ser no próprio eu, naquele âmago indestrutível que cada um trazia em si? Mas, em que lugar,  em que lugar achava-se esse eu, esse âmago, esse último fim? Não era nem carne nem osso, nem pensamento nem consciência, segundo afirmavam os mais sábios.
Onde, onde existia então? Para chegar até ele, até ao eu, até a mim, ao Átman — haveria qualquer outro caminho que valesse a pena procurar? AÍ dele! Ninguém lhe indicava tal caminho, ninguém o conhecia, nem o pai, nem os mestres e os sábios, nem os sagrados cânticos do ritual dos sacrifícios! Tudo sabiam eles, os brâmanes com seus livros santificados; tudo sabiam; com tudo se preocupavam, com tudo e mais ainda, desde a criação do mundo e a origem da fala, dos alimentos, da aspiração e da exalação até às categorias dos sentidos e às façanhas dos deuses!
Sabiam inúmeras coisas, mas que valor tinha toda essa sabedoria para quem ignorasse aquilo que era uno e único, o mais importante, ao lado do qual coisa alguma tinha importância?
Era bem- verdade que numerosos versos dos livros sagrados, sobretudo dos upanichades do Sama-Veda referiam-se a esse quê derradeiro, mais íntimo. Que versos maravilhosos! "Tua alma é o mundo inteiro" — rezava um deles e estava escrito que o homem durante o sono, o sono profundo, entrava no próprio âmago e habitava o Átman. Sabedoria milagrosa residia nesses poemas. Todos os conhecimentos dos mais sábios encontravam- se ali reunidos, puros qual mel colhido pelas abelhas.
Não, absolutamente não convinha desprezar a imensa quantidade de saber que lá estava armazenada e conservada por inúmeras gerações de brâmanes eruditos.. . Mas, onde se achariam os brâmanes, onde os sacerdotes, os sábios ou os ascetas que lograssem não somente conhecer senão também viver essa profunda sabedoria? Onde estaria o homem perito que fosse capaz de realizar aquele passe de mágica que transportasse a familiaridade com o Átman desde o sono para o estado de vigília, para a vida de todos os momentos e a demonstrasse por atos e palavras?
Sidarta tinha contato com grande número de venerandos brâmanes e, em primeiro lugar, com seu pai, homem puro, letrado, sumamente digno de reverência. Admirável, sim, era o pai, no seu comportamento calmo, distinto. Pura era sua vida; ponderada, sua maneira de falar; ideias delicadas e nobres residiam atrás da sua testa. Quem poderia, porém, afirmar que esse homem, que tanta coisa sabia, levava uma existência feliz?
Não seria também ele um pesquisador acossado pela sede? Não se sentia impelido a beber, insaciável, uma e outra vez nas fontes sagradas, a fim de abrevar-se em sacrifícios, livros, colóquios com outros brâmanes? Por que era preciso que tal ser incensurável se lavasse diariamente de seus pecados, empenhando-se dia a dia naquela incessante purificação? Não mora nele o Átman? Não lhe brotava do fundo do coração o manancial dos mananciais? Esse manancial, cumpria encontrá-lo dentro do próprio eu, para apossar-se dele! Todo o resto era apenas busca, desvio, equívoco.
Tais eram os pensamentos de Sidarta, a sua sede, o seu sofrimento.
Frequentemente recitava de si para si os versetos de um upanichade de Xandogia: "Deveras, o nome do Brama é satiam e quem tiver conhecimento disso entrará todos os dias verdadeiramente no mundo celeste." Amiúde, esse mundo celeste descortinava-se lhe bem próximo, mas jamais ele conseguiu alcançá-lo, jamais saciou inteiramente a sede. E entre todos os eruditos que conhecia, entre os pensadores mais sábios cujos ensinamentos lhe eram ministrados, não havia nenhum que tivesse chegado até lá, pondo o pé no mundo celeste e matando a sede perene.
— Govinda! — disse Sidarta ao amigo — Govinda, meu caro, vem comigo até à figueira. À sua sombra, entreguemo-nos à meditação.
Encaminharam-se para a árvore. Assentaram-se, Sidarta num lugar, e Govinda, noutro, a vinte passos de distância. Enquanto tomava assento e se dispunha a pronunciar o Om.
Sidarta, num murmúrio, repetia os versos:
“Om é arco; a alma é a seta;
Brama é o alvo da seta;
Cumpre feri-lo constantemente."

Sidarta é um romance escrito por Hermann Hesse, um dos maiores escritores alemães. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1946. A sua primeira publicação foi em 1922 e conta passagem da sua vida e pensamento durante a sua estadia na Índia em 1910, inspirado na tradição contada de Siddhartha Gautama, o Buda. O livro trata basicamente a busca pela plenitude espiritual, e o alcance de estados em que a mente humana se encontra absolutamente completa e plena.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

004 - a arte da felicidade - Dalai Lama

A arte da felicidade (Howard Cutler e Dalai Lama)
“Acredito que o objetivo da nossa vida seja a busca da felicidade. Isso está claro. Quer se acredite em religião ou não, quer se acredite nesta religião ou naquela, todos nós buscamos algo melhor na vida. Portanto, acho que a motivação da nossa vida é a felicidade.

Quando você mantém um sentimento de compaixão, bondade e amor, algo abre automaticamente sua porta interna.

Com isso, você pode se comunicar mais facilmente com as outras pessoas. E esse sentimento de calor cria uma espécie de abertura. Você descobre que todos os seres humanos são exatamente iguais a você e se torna capaz de se relacionar mais facilmente com eles. Isso lhe confere um espírito de amizade. Então há menos necessidade de esconder as coisas e, consequentemente, sentimentos de medo, dúvida e insegurança se dispersam automaticamente.

Na nossa vida diária, certamente aparecem problemas. Os maiores problemas em nossas vidas são aqueles que temos de enfrentar inevitavelmente, como a velhice, a doença e a morte. Tentar evitar nossos problemas ou simplesmente não pensar neles pode nos dar um alívio temporário, mas acho que há um modo melhor de lidar com eles.

Se você enfrentar seu sofrimento diretamente, terá mais condições de avaliar a profundidade e a natureza do problema. Numa batalha, enquanto você ignorar as condições e a capacidade de combate do inimigo, estará completamente despreparado e paralisado pelo medo.

No entanto, se você conhecer a capacidade de luta de seus adversários, os tipos de armas que eles têm e assim por diante, terá muito mais condições de entrar na guerra. Do mesmo modo, se você enfrentar seus problemas em vez de os evitar, terá mais condições de lidar com eles”.

Por Dalai Lama


O médico psiquiatra norte-americano Howard C. Cutler decidiu ir ao Tibete para fazer pesquisas sobre a medicina tradicional tibetana. Nessa sua estadia por terras tibetanas acabou por conhecer esse mestre espiritual, o Dalai Lama. Encontraram-se os dois inúmeras vezes e desses encontros, certamente bastante frutíferos, surgiu a ideia ao autor de escrever este livro que busca orientar o leitor no seu caminho rumo à felicidade.

Que todos nós, de uma maneira ou de outra, buscamos a felicidade, disso ninguém tem dúvidas. A pergunta a que é difícil responder é: - Qual o caminho comum capaz de nos conduzir a essa desejada felicidade?

O autor deste livro (que partilha essa qualidade com Dalai Lama), Howard C. Cutler, acha que sim. Dessas entrevistas Cutler extraiu conhecimentos da sabedoria budista que adicionou a alguns conceitos da psicologia ocidental. Dessa mistura surgiram conselhos simples que tentam ajudar a todos a conquistarem uma paz interior, que pode conduzir à felicidade. Mas, como é evidente, não há receitas certas para a felicidade. De acordo com os autores o segredo está na capacidade que cada um tem (ou não) de expressar seus sentimentos de compaixão. 

Eu, aliás, percebi que a questão fundamental na busca pela felicidade está precisamente em rever as nossas crenças ou premissas que causam o sofrimento. A premissa é o ponto ou a ideia de que se parte para armar um raciocínio enquanto a prerrogativa significa privilégio ou vantagem que possuem os indivíduos de uma determinada classe ou espécie. Mesmo não sendo iguais elas são usadas, em muitos casos, com o mesmo sentido. Como se quisessem dizer que aquilo que eu uso para justificar as coisas partisse de uma ideia ou vantagem intrínseca. No livro A Arte da Felicidade, escrito por Howard C. Cutler e Sua Santidade Dalai Lama, podemos entender melhor:

— No esforço de determinar a origem dos problemas de cada um, parece que a abordagem ocidental difere sob muitos aspectos do enfoque budista. Subjacente a todas as variedades de análise ocidental, há suma tendência racionalista muito forte, um pressuposto de que tudo pode ser explicado. E ainda por cima existem restrições decorrentes de certas premissas tidas como líquidas e certas. Por exemplo, eu recentemente me reuni com alguns médicos numa faculdade de medicina. Estavam falando sobre o cérebro e afirmaram que os pensamentos e os sentimentos resultam de diferentes reações e alterações químicas no cérebro. Por isso, propus uma pergunta. É possível conceber a sequência inversa, na qual o pensamento de ensejo a sequência de ocorrências químicas no cérebro? Mas a parte que considerei mais interessante foi a resposta dada pelo cientista. “Partimos da premissa de que todos os pensamentos são produtos ou funções de reações químicas no cérebro.” Quer dizer que se trata simplesmente de uma espécie de rigidez, uma decisão de não questionar o próprio modo de pensar.

Gosto de ver que as minhas premissas ou prerrogativas jamais serão plenamente partilhadas pelos outros, por quê? Porque não existe a possibilidade de que as minhas experiências e o modo como eu as compreendo sejam idênticos ao dos outros e é exatamente isto que torna as nossas vidas mais interessantes, os conflitos.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

003 - voo noturno - Saint-Exupéry

Voo Noturno (Antoine de Saint-Exupéry, 1931)
O piloto que arrisca a vida constantemente tem certo direito de sorrir da noção que, em geral, temos da “coragem”. Saint-Exupéry permitir-me-á citar uma carta sua, já antiga, do tempo em que ele sobrevoava a Mauritânia para assegurar o serviço Casablanca – Dacar:

“Não sei quando volto, tenho tanto trabalho de uns meses para cá: busca de camaradas perdidos, reparo de aviões caídos em territórios dissidentes e alguns correios para Dacar.

Acabo de me sair bem de uma pequena façanha: passei dois dias e duas noites com onze mouros e um mecânico para salvar um avião. Alarmes vários e graves. Ouvi pela primeira vez as balas por cima da minha cabeça. Vejo finalmente o que sou naquele ambiente: muito mais calmo que os mouros. Mas compreendi também o que sempre me causara espanto: por que Platão (ou Aristóteles?) coloca a coragem na última fila das virtudes. Não se compõe de sentimentos especialmente belos: um pouco de raiva, um pouco de vaidade, muita teimosia e um prazer desportivo trivial. Sobretudo a exaltação da nossa força física, que, contudo não pé para ali chamada. Cruzamos os braços sobre o peito descoberto e respiramos à vontade. É bastante agradável. Quando isso se sucede à noite, vem misturar-se, a tudo o mais, a sensação de termos cometido uma tremenda asneira. Nunca mais terei admiração por um homem que seja somente corajoso”.

Poderia por em epigrafe a esta citação um apotegma extraído do livro de Quinton (que estou longe de aprovar sempre): “Escondemos a valentia como o amor”; ou melhor ainda: “Os valentes escondem os seus atos do mesmo modo que as pessoas virtuosas escondem as esmolas que dão. Mascaram-nos ou arranjam desculpas para eles”.

É com conhecimento de causa que Saint-Exupéry fala, ao fazer a sua narrativa. O fato de enfrentar pessoalmente um perigo constante confere ao seu livro um sabor autêntico e inimitável. Escreveram-se várias narrativas de guerra ou de aventuras imaginárias em que o autor demonstrava um talento maleável, mas que fazem sorrir os verdadeiros aventureiros e combatentes que as leem. Esta narrativa, cujo valor literário também muito admiro, tem por outro lado o valor de um documento, e estas duas qualidades, inesperadamente reunidas, conferem a Voo Noturno sua importância excepcional.

Prefácio, por André Gide.


Mais apropriado que o otimismo ou o pessimismo é um certo patriotismo cósmico, pois ninguém jamais esteve na posição de julgar o mundo ao qual pertence antes mesmo de tentar compreendê-lo.

O patriota cósmico exerce um patriotismo místico, isto é, um patriotismo sem razão (apaixonado), pois se alguém ama seu país por uma razão, seja ela qual for, poderá acabar defendendo essa razão até mesmo contra seu país. Contudo, o patriota místico ama seu país e empenha-se para reformar suas imperfeições. Ele é um leal reformista.

Riviére, o personagem central da obra de Antoine de Saint-Exupéry intitulada Voo Noturno, demonstra lealdade militar ao parco legado de conhecimento de uma incipiente aviação e um apego apaixonado à sua missão (responsável por uma rede de correios aéreos) e à sua revolução (único defensor dos voos noturnos). Rivière é um leal reformista.

Nos primórdios da aviação, um voo noturno mais que desafiava as possibilidades de domínio da natureza: era uma aventura às cegas.

Esse domínio das sombras era temido nos círculos oficiais. Lançar uma tripulação, a duzentos quilômetros por hora, contra as tempestades, os nevoeiros e os obstáculos que a noite guarda escondidos no seu seio, parecia-lhes uma aventura tolerável para a aviação militar: parte-se de um campo em noite clara, bombardeia-se e volta-se ao mesmo campo. Mas os serviços regulares não teriam êxito de noite.

Voo Noturno relata a trágica aventura de um desses pioneiros do ar, provavelmente baseada num fato real: as horas de ansiedade vividas por ocasião do desaparecimento, na Cordilheira dos Andes, do piloto Guillaumet, amigo de Saint-Exupéry, ele mesmo também piloto.

A complexidade da missão de Rivière ia muito além das questões meramente técnicas, logísticas ou tecnológicas. Tratava-se de disciplinar, encorajar e motivar seus comandados (pilotos, rádio-telegrafistas, mecânicos, engenheiros...); implicava competir com outros meios de transporte que, embora mais lentos, nunca paravam, nem mesmo diante do mistério pérfido da noite; incluía fazer prevalecer sua solitária posição favorável aos voos noturnos. E colocar seus homens, como a si mesmo, a serviço da ação. E da realização. Rivière tem um propósito. Ele trabalha para reformar, realizar, legar. E, assim agindo, ele honra e mostra lealdade ao que recebeu por herança, e contribui para algo ainda melhor.

O escritor francês André Paul Guillaume Gide (premiado com o Nobel de Literatura de 1947), que assina o prefácio de Voo Noturno, referindo-se a Saint-Exupéry, diz o essencial em relação ao ponto que aqui interessa:

Estou-lhe especialmente grato por ter focalizado esta verdade paradoxal, que reputo de uma importância psicológica considerável: que a felicidade do homem não se encontra na liberdade, mas sim na aceitação de um dever.

Que dever?

Uma vez, junto de uma ponte em construção, debruçados sobre um ferido, um engenheiro disse a Rivière: "valerá esta ponte o preço de um rosto esmagado? Nem um só camponês teria aceito, para economizar um desvio pela ponte seguinte, a mutilação medonha deste rosto. E, no entanto, constroem-se pontes". O engenheiro acrescentara: "o interesse geral é formado de interesses particulares: não justifica mais coisa alguma". - "E, no entanto", retorquira-lhe mais tarde Rivière, "apesar de a vida humana não ter preço, agimos sempre como se qualquer coisa fosse mais valiosa que ela. Mas o quê?" Pensando na tripulação, Rivière sentiu um aperto no coração. A ação, mesmo a que consiste em construir uma ponte, destrói felicidades. Rivière já não podia deixar de perguntar:

"Em nome de quê?"

Em nome do legado. Em nome da memória de nossos pais. Em nome dos nossos filhos. Em nome da pátria, da nossa pátria comum, da humanidade... Assim responde, com outras palavras, o intrépido Rivière:

Amar, amar somente, é um beco sem saída! Rivière teve a noção obscura de um dever mais forte que o de amar. Ou talvez se tratasse igualmente de uma ternura, mas tão diferente das outras. Voltou-lhe à mente uma frase: " Trata-se de torná-los eternos...." Onde teria lido isso? " O que buscamos vai morrendo conosco" . Lembrou-se de um templo erguido em honra do deus do Sol pelos antigos incas do Peru. Pedras erguidas ao céu, em plena montanha. Que restaria, se elas não existissem, de uma civilização poderosa que pesava, com toda a carga de suas pedras, sobre o homem de nossos dias, como um remorso? Em nome de que dureza, ou de que estranho amor, o condutor de povos de outrora, obrigando as multidões a acarretar com aquele templo para o topo da montanha, lhes impôs assim o dever de erigir a sua eternidade?

Rivière se questionava. Estaria ele no lugar daquele que manda os homens construírem pontes e erguerem templos? Um tirano? Um dominador? Injusto, talvez?

Uma tripulação se perdeu, como talvez nenhuma outra se perderia desde então. Um ciclone incomum. Faltavam postos de observação... Lá se foram duas vidas.

Vitória... derrota... estas palavras não têm sentido algum. A vida está por debaixo dessas imagens e já prepara novas imagens. Uma vitória enfraquece um povo, uma derrota acorda outro. A derrota que Rivière sofreu é talvez uma promessa que torna mais próxima a verdadeira vitória.

Consolava-se, contudo, com a ideia de que a velhice e a morte, mais cruéis que ele próprio, destruiriam seus homens. Talvez existisse algo mais duradouro a ser salvo. Será que é para salvar essa parte do homem que Rivière trabalha? Não resta dúvida.

Sinopse, por wr.roxo