De todos os livros que li sobre Jesus, na maioria não canônicos, esta ficção superou as demais e esta cena em particular nunca saiu da minha mente. Talvez todos nós quiséssemos que ele fosse assim, talvez até saibamos que é exatamente assim, só não queremos admitir.
Concluídas as
tarefas, o Mestre consultou o sol. Devia ser a "décima" (quatro da
tarde). Faltavam, pois, pouco mais de duas horas para o anoitecer. E ele,
atento e solícito, perguntou:
— Que
tal um banho antes do jantar?
Um banho A
dois mil metros de altitude! Meu irmão, entusiasmado, concordou no mesmo
instante. E Ele, com um gesto da mão esquerda nos convidou a segui-lo. Como eu
dizia, ainda não tínhamos visto tudo...
O Galileu
cruzou a esplanada, adentrando no breve arvoredo do referido flanco leste. Do
outro lado nos esperava uma surpresa não menos reconfortante.
As cascatas!
Acho que foi
normal. Eram muitas emoções para lembrar alguma coisa tão insignificante como
as repetidas alusões dos montanheses àquele "pouco recomendável
lugar"! Espero voltar a falar disso, mas, francamente, a presença do Filho
do Homem me mantinha - nos mantinha - meio hipnotizados.
Bem à margem
dos cedros aparecia o esquecido nahal
Hermon. Descia dos cumes nevados, e o
fazia espumoso, irritado e queixoso. Na altura da meseta, cerca de cinco ou
seis metros debaixo dos nossos pés, o terreno se escalonava, forçando a
torrente a saltar. Resultado: duas cascatas brancas e barulhentas de mais de
dois metros de altura cada uma. E entre ambas, uma espaçosa e mansa
"piscina", de águas frias e transparentes. Um amarelado anfiteatro
rochoso de gesso cenozoico, magistralmente desenhado pela Natureza, ocupava
parte da "piscina" refreando o ímpeto do nahal. O rochedo acompanhava a corrente, formando uma segunda
ilhota ao pé da última cascata.
Daquele
momento em diante, para Eliseu e para este que escreve, esse remanso seria
batizado de a "piscina de gesso". Diante de nós, erguendo-se para a
dita "piscina", desafiando os cedros, vigiava uma solitária patrulha
de carvalhos. E entre o mini arvoredo, alguns salgueiros e os inevitáveis
círculos de adelfas.
Dito e feito.
O Mestre,
alvoroçado, tirou a túnica e as sandálias e, de um salto mergulhou de cabeça
nas águas, provocando a precipitada fuga de dezenas de inquilinos do carvalhal:
"nectarinas" de cabeças e peitos violetas, "trigueiros" de
orelha negra e cauda branca e tímidos "carpinteiros" sírios, entre
outros.
Eliseu,
nervoso, tirou a roupa como pôde e, sem vacilar, seguiu o exemplo de Jesus de
Nazaré. Eu, sem acreditar no que estava vendo, fui me sentar na beira da
"piscina", para contemplá-los.
O Mestre
nadando!
Podia parecer
coisa infantil. Não sei... Mas não importa. Para mim, aquele Jesus era novo.
Diferente. Tão próximo e natural...
Ele dava
braçadas ágeis, com força. Parava. Inspirava e desaparecia sob as águas.
Procurara o engenheiro. Pegava-o pelas pernas e, como se fosse uma pena, o
levantava sobre a superfície e o deixava cair. Risadas. Eliseu, desconcertado,
se recuperava e, sem delongas, perseguia o Mestre. Apoiava-se nos brilhantes e
musculosos ombros e tentava afundá-lo. Impossível. O Filho do Homem era uma
rocha. Ele se esquivava. Chapinhava. E entre gargalhadas, terminava afundando
de novo o pobre Eliseu...
Não sei quanto
tempo fiquei ali em cima, atônito... e feliz. Sim, essa era a palavra exata:
feliz.
De repente,
porém, eu vi os dois cochichando. E, em silêncio, deslocaram-se na direção
deste que aqui escreve. Os dois exibiam um suspeito sorriso de cumplicidade.
Fiquei de pé
e, entendendo as más intenções, pedi calma. Tirei a roupa na maior velocidade
e, antes de ser pego por aqueles maravilhosos "loucos", pulei na
"piscina". Quando consegui voltar à superfície, quatro poderosas mãos
me agarraram e me afundaram.
E como três
crianças, sem deixar de rir, perseguindo-nos uns aos outros prolongamos assim
aquele primeiro e inesquecível banho aos pés do Hermon.
Nunca, nunca
poderei esquecer aquilo.
Uma hora
depois, esgotados, nos reunimos ao pé dos cedros.
O Mestre
soltou seus cabelos e foi se sentar na frente destes esbaforidos exploradores. O
sol, se despedindo, roçando o horizonte azul e ondulado dos bosques, começou a
vestir e a preparar para a noite os cumes nevados. E fez isso devagar,
respeitoso, com dedos cor de laranja.
Jesus
inspirou profundamente e jogou a cabeça para trás. Depois, fechando os olhos,
permaneceu num longo e majestoso silêncio. Algumas gotas, irreverentes,
escorregaram pelas têmporas, caindo sobre o tórax bronzeado, largo e descontraído.
Outra vez
fiquei surpreso. Enquanto nossos corações bombeavam agitados, Ele, impassível,
mal erguia a caixa torácica. Sua capacidade de recuperação era assombrosa. De
repente, sem aviso prévio, o sempre sincero e espontâneo engenheiro formulou
uma pergunta. Uma questão que nos rondava e atormentava muito antes de chegar à
sua presença.
Eliseu, como
de costume, teve mais coragem do que eu...
— Senhor, o
que fazes aqui?
Na hora, o
Galileu não respondeu. Continuou com os olhos fechados, alheio a tudo e a
todos. Achei que não queria falar. E fulminei meu companheiro com o olhar.
Eliseu, desolado, baixou a cabeça.
— Não, Jasão —
interveio o Mestre, me pegando de
surpresa -, não repreendas teu irmão porque, como tu, ele anseia saber a
verdade...
Era
impossível. Eu não conseguia me acostumar. Como ele fazia isso? Como podia
"ver" ou "ler" os corações? Se tinha os olhos fechados,
como pôde...
Endireitou o
rosto e, me atravessando com aquele olhar, de novo me pegou na curva:
— Por que
agora, querido Jasão, finalmente, recuperei o que é meu...
E virando-se
para o espantado Eliseu, com seu melhor sorriso, acrescentou:
— Amigo,
fazes bem em perguntar. Para isso estais aqui. Para dar conta e dar fé do que
sou e do que deseja meu Pai... Vosso Pai.
Pedi
desculpas ao meu companheiro e, esquecido o leve incidente, Eliseu, vibrante,
voltou sua atenção ao Rabi, reformulando a questão inicial.
— Vieste ao Hermon para procurar alguma coisa que
havias perdido?
O Mestre,
encantado com a transparência daquele homem, o fitou durante alguns segundos.
Seus olhos brilharam e um sorriso quase imperceptível derramou-se por seu
rosto, chegando até nós.
E voltou a
nos desconcertar.
— Excelente
pergunta. Depois do jantar, não deixes de me lembrar essa questão.
Deu uma
piscada para Eliseu e, de um pulo, como um atleta, ficou em pé. Recolheu suas
coisas e, decidido, cantarolando, voltou ao mahaneh.
E estes exploradores e um Hermon definitivamente
cor de laranja ficamos em suspense.