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terça-feira, 27 de maio de 2014

019 - caverna dos antigos - lobsang rampa

— Nós somos criaturas do Espírito — afirmou ele —, somos como cargas elétricas dotadas de inteligência. Este mundo, esta vida, é o Inferno, o lugar de provas, onde nosso Espírito se purifica, pelo sofrimento de aprender a controlar nosso grosseiro corpo carnal. Assim como um fantoche é controlado por cordéis manipulados pelo Senhor dos Fantoches, também nosso corpo carnal é controlado por cordões de força elétrica de nosso Eu Maior, nosso Espírito.

Um bom Senhor de Fantoches pode criar a ilusão de que os bonecos de madeira são dotados de vida, que podem agir por vontade própria. Do mesmo modo, nós, enquanto não aprendemos mais, achamos que nosso corpo carnal é a coisa única que importa. Na atmosfera sufocante para o espírito, a da Terra, esquecemos que temos a Alma que realmente nos controla, julgamos estar fazendo as coisas por nossa própria vontade livre, e que somos responsáveis apenas perante nossa "consciência". Assim, Lobsang, temos a primeira ilusão, a ilusão de que o fantoche, o corpo carnal, é o que importa. Ele se deteve, notando minha expressão de perplexidade.


— Bem? — perguntou. O que o perturba?

— Senhor! — disse eu. — Onde estão meus cordéis de força elétrica? Não posso ver coisa alguma a ligar-me com meu Eu Maior?

Ele ria, ao responder:

— Você pode ver o ar, Lobsang? Não pode, enquanto estiver no corpo carnal.

Inclinando-se à frente, apanhou meu manto, e quase me matou de susto, enquanto eu lhe fitava os olhos penetrantes.

— Lobsang! — disse ele com severidade. — O seu cérebro se evaporou todo? Você é realmente feito de osso, do pescoço para cima? Esqueceu-se do Cordão de Prata, aquela coleção de linhas de força elétrica, que o ligam... aqui... à sua alma? Francamente, Lobsang, você está no Mundo de Ilusão!

Senti que o meu rosto se punha escarlate. Eu, naturalmente, tinha conhecimento do Cordão de Prata, esse fio de luz azulada que liga o corpo físico ao espiritual. Muitas vezes, quando viajando no plano astral, eu observava o Cordão bruxuleando e pulsando com luz e vida. Era como o cordão umbilical que liga a mãe e a criança recém-nascida, só que a "criança" que é o corpo físico não poderia existir um só momento, se o Cordão de Prata fosse cortado.

Ergui o olhar, e meu guia estava pronto para prosseguir, após minha interrupção.

— Quando estamos no mundo físico, inclinamo-nos a pensar que somente o mundo físico importa. Esse é um dos dispositivos de segurança do Eu Maior; se recordássemos o Mundo Espiritual com sua felicidade, somente conseguiríamos continuar aqui mediante um grande esforço de vontade. Se nos recordássemos de vidas anteriores, quando, talvez, fomos mais importantes do que nesta vida, não teríamos a humildade necessária. Vamos mandar trazer chá, e eu lhe mostrarei, ou lhe contarei, a vida de um chinês, desde sua morte ao renascimento e à morte e chegada ao Mundo Seguinte.

— Honrado Lama — perguntei —, qual é o objetivo do medo? Por que temos de sofrer tanto, pelo medo? Eu já descobri que as coisas que mais temo jamais acontecem, mas ainda assim eu as temo!

O lama riu, e disse:
— Isso acontece com todos nós. Nós receamos o Desconhecido. No entanto, o medo é necessário. É ele que nos acicata a prosseguir, quando, de outra forma, seríamos preguiçosos. O medo confere vigor adicional, com o qual evitamos os acidentes. O medo é um propulsor que nos confere mais poder, mais incentivo, e faz com que sobrepujemos nossa própria inclinação à preguiça. Você não estudaria nem faria seus trabalhos escolares, se não tivesse medo do professor, ou medo de parecer estúpido, diante dos colegas.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

018 - pense e enriqueça

As 31 Principais Causas Do Fracasso. Napoleon Hill

Acredito que você já tenha tentado incentivar uma pessoa a fazer alguma coisa que traria bons resultados para ela. Ao mesmo tempo, você percebia que ela tinha alguma deficiência que teria que ser superada durante o processo. Então, ao mesmo tempo que a incentivava, pedia que Deus fizesse uma intervenção para que tudo desse certo.
Napoleon Hill, escritor do bestseller “Pense e Enriqueça” (título atual: Quem Pensa Enriquece), dá a receita para você ajudar as pessoas que desejam alcançar o sucesso, mas tem alguma deficiência. Vale a pena ler esse trecho do livro.

“As 31 Principais Causas Do Fracasso

A maior tragédia da vida consiste em homens e mulheres que tentam seriamente e falham! A tragédia está na maioria avassaladora de gente que falha, comparada aos poucos que vencem.

Tive o privilégio de analisar vários milhares de homens e mulheres, 98% dos quais foram classificados como “fracassos”.
Minha análise demonstrou que há trinta e uma razões principais para o fracasso e treze princípios importantes pelos quais as pessoas acumulam fortunas. Neste capítulo serão apresentadas as descrições das trinta e uma razões principais do fracasso. Ao percorrer a lista, examine-se com auxílio dessa, ponto por ponto, com o propósito de descobrir quantas dessas causas de fracasso estão entre você e o sucesso:

1. Carga hereditária desfavorável: Há muito pouco a fazer, se é que há algo, por pessoas nascidas com deficiência de inteligência. A filosofia dessa obra oferece apenas um método de superar tal fraqueza: que é pelo auxílio da Mente Superior. Observe, porém, que esse é, no entanto, o ÚNICO dos trinta e um casos de fracasso que não pode ser facilmente corrigido por qualquer individuo.

2. Falta de um propósito bem definido na vida: Não há esperança de sucesso para a pessoa que não tem um propósito central, ou objetivo, definido para perseguir. Noventa e oito entre cem dos que analisei não tinham tal objetivo. Talvez essa fosse a principal causa de seu fracasso.

                     
3. Falta de ambição de aspirar acima da mediocridade: Não oferecemos esperança à pessoa indiferente a ponto de não querer progredir na vida e que não esteja disposta a pagar o preço.  

        
4. Instrução insuficiente: Essa é uma desvantagem facilmente sanável. A experiência provou que as pessoas mais instruídas são as que se fazem por si mesmas ou autodidatas. É preciso mais do que um diploma de escola superior para tornar a pessoa instruída. Qualquer pessoa instruída aprendeu a conseguir o que quiser na vida, sem violar direitos alheios. A instrução consiste não tanto nos conhecimentos, mas nos conhecimentos aplicados com eficiência e persistência. As pessoas são pagas não só pelo que sabem, mas, mais especificamente, pelo que fazem com o que sabem.

5. Falta de autodisciplina: A disciplina vem através do autocontrole, o que significa que se deve controlar todas as qualidades negativas. Antes de poder controlar as condições, você deve controlar a si mesmo. Autodomínio é a tarefa mais árdua que você jamais enfrentará. Se não vencer seu eu, será vencido por ele. Você poderá ver, ao mesmo tempo, seu melhor amigo e maior inimigo, colocando-se diante do espelho.
6. Má saúde: Ninguém pode ter êxito acentuado sem boa saúde. Inúmeras causas de má saúde dependem de domínio e controle. São estas as principais:
a. Abusar de comidas prejudiciais a saúde.
b. Hábitos de raciocínio errados; dar expressão a negativismos.
c. Pratica indevida ou exagerada do sexo.
d. Falta de exercício físico certo.
e. Quantidade inadequada de ar fresco, devido à respiração falha.

7. Influências desfavoráveis do meio, durante a infância: “Conforme se curva o galho, a árvore se inclina.” A maioria das pessoas de tendências criminosas adquirem essas tendências como resultado do mau ambiente e de amizades impróprias durante a infância.

8. Procrastinação: Esta é uma das causas mais comuns de fracasso. A procrastinação está à sombra de todo o ser humano, esperando a oportunidade de estragar-lhe as chances de sucesso. A maioria de nós atravessa a vida como fracassado porque espera o “momento certo” para começar algo que valha a pena. Não fique esperando. O momento nunca será “exatamente certo”. Comece onde está e use quaisquer ferramentas que tenha à mão. Ferramentas melhores aparecerão ao longo de seu caminho.

9. Falta de persistência: Muitos de nós somos bons “iniciadores”, mas péssimos “finalizadores” de todas as coisas que começamos. Além do que, as pessoas estão inclinadas a desistir aos primeiros sinais da derrota. Não há substituto para a persistência. A pessoa que faz da persistência sua palavra chave, descobre que o “Velho Senhor Fracasso” finalmente se cansa e vai embora. O fracasso não é capaz de enfrentar a persistência.

10. Personalidade negativa: Não há esperança de sucesso para a pessoa que repele os outros, através de uma personalidade negativa. O sucesso vem pela aplicação do poder e esse é atingido pelo esforço conjunto de outras pessoas. Uma personalidade negativa não induz à cooperação.

11. Falta de controle do impulso sexual: A energia sexual é o mais poderoso de todos os estímulos, que levam as pessoas à ação. Por ser a mais poderosa das emoções, deve ser controlada pela transmutação e dirigida a outros canais.

12. Desejo descontrolado por “ganhar algo de graça”: o instinto de jogador leva milhões de pessoas ao fracasso. Provas disso podem ser encontradas no estudo do colapso de Wall Street, em 1929, quando milhões de pessoas tentaram ganhar dinheiro jogando na bolsa.

13. Falta de poder de decisão definido: Homens bem sucedidos chegam às decisões com rapidez e, se for o caso, as mudam muito lentamente. Homens que fracassam chegam às decisões, se é que chegam, muito lentamente e mudam-nas com rapidez e freqüência. Indecisão e procrastinação são irmãs gêmeas. Onde uma se encontra, geralmente, se pode achar a outra. Destrua esse par, antes que ele o prenda à roda de moer do fracasso.

14. Um ou mais dos seis temores básicos: Esses temores foram analisados para você num dos capítulos seguintes. Devem ser dominados, antes de você poder oferecer seus serviços com eficiência.
15. Escolha errada do cônjuge: Essa é uma das causas mais comuns do fracasso. O casamento põe as pessoas em contato íntimo. Se essa relação não for harmoniosa, é provável que venha o fracasso. Além disso, trata-se de uma forma de fracasso marcada pela tristeza e infelicidade, destruindo todos os sinais de ambição.

16. Excesso de cautela: A pessoa que não se arrisca, geralmente tem de se contentar com as sobras, quando os outros já se satisfizeram, exercendo suas escolhas. O excesso de cautela é tão prejudicial quanto a pouca cautela. Ambos os extremos devem ser evitados. A própria vida está repleta do elemento do risco ou perigo.

17. Escolha errada dos sócios comerciais: Essa é uma das causas mais comuns de fracasso, em negócios. Ao oferecer serviços pessoais, deve-se ter grande cuidado em escolher um empregador que seja uma inspiração e que seja, ele próprio, inteligente e bem sucedido. Nós imitamos aqueles com quem nos associamos mais proximamente. Escolha um empregador que mereça ser imitado.

18. Superstição e preconceito: Superstição é um tipo de temor. É também um sinal de ignorância. Os homens de êxito mantêm a mente aberta e não temem nada.

19. Escolha errada de vocação: Ninguém pode obter sucesso numa linha de atividade que não goste. O passo mais importante na negociação de serviços pessoais é a seleção de uma ocupação a qual você possa se entregar de corpo e alma.

20. Falta de concentrarão de esforço: O pau-para-toda-obra raramente é bom em alguma coisa. Concentre seus esforços em um objetivo definido, principal.

21. O hábito dos gastos indiscriminados: O mão aberta não pode ter sucesso, principalmente porque está sempre apavorado com a pobreza. Forme o hábito da economia sistemática, guardando uma porcentagem definida da sua renda. Dinheiro no banco proporciona uma base segura de coragem, ao negociar a venda de serviços pessoais. Sem dinheiro, é preciso aceitar o que é oferecido e ficar contente de obtê-lo.

22. Falta de entusiasmo: Sem entusiasmo não se pode ser convincente. Além disso, o entusiasmo é contagiante e a pessoa que o tem sob seu domínio é geralmente bem vinda em qualquer grupo de pessoas.

23. Intolerância: Quem tiver mentalidade estreita raramente progride. A intolerância significa que se parou de adquirir conhecimentos. As formas mais danosas de intolerância são as que se relacionam com diferenças de opinião religiosa, racial e política.

24. Intemperança: As formas mais prejudiciais de intemperança relacionam-se com atividades gastronômicas, alcoólicas e sexuais. Abusar de qualquer delas é fatal ao sucesso.

25. Inabilidade de cooperar com outros: Mais gente perde os cargos e grandes oportunidades na vida por essa falta, que por todas as outras razões combinadas. É uma falha que nenhum homem de negócios ou líder bem informado irá tolerar.

26. Posse de poder não adquirido par esforço próprio: (Filhos e filhas de gente rica e os que herdam dinheiro, ganho por outrem.) O poder, nas mãos de quem não o adquiriu gradualmente, é, não raro, fatal ao sucesso. Riqueza rápida demais é mais perigosa que a pobreza.

27. Desonestidade intencional: Não há substituto para a honestidade. Pode-se ser temporariamente desonesto, por força das circunstâncias, sobre as quais não se têm controle, sem dano permanente. Mas não há esperança para a pessoa desonesta por livre escolha. Mais cedo ou mais tarde, suas ações a apanham e ela pagará com a perda da reputação e talvez até da liberdade.

28. Egoísmo e vaidade: Essas qualidades são verdadeiras luzes vermelhas, que avisam aos outros que se afastem. São fatais ao sucesso.

29. Adivinhar em vez de pensar: A maioria das pessoas é indiferente ou preguiçosa demais para reunir fatos com os quais raciocine com exatidão. Preferem agir baseadas em “opiniões”, criadas por adivinhação ou julgamentos instantâneos.

30. Falta de capital: Essa é uma causa comum de fracasso, entre os que começam em negócios, pela primeira vez, sem reserva suficiente de capital para absorver o choque de seus erros e aguentá-los até que estabeleçam sua reputação.

31. Outras causas de fracasso: Inclua aqui qualquer outra causa principal de um fracasso que você tenha sofrido e que não tenha sido incluída na presente lista.

Nessas trinta e uma causas principais de fracasso encontra-se a descrição da tragédia da vida, que acontece a praticamente todos os que tentam e falham. Será de grande utilidade se você puder pedir a alguém que o conheça bem, para percorrer essa lista com você, ajudando-o a se analisar através das trinta e uma causas do fracasso. Será benéfico se o tentar sozinho. A maioria das pessoas não pode se ver como outros a veem. Você pode ser uma delas.”

terça-feira, 15 de abril de 2014

017 - cavalo de tróia 7.11 - j.j, benítez

O Mestre? Eliseu? Onde diabos estavam? Inspecionei o aglomerado de neblina. Prosseguia a descida, lambendo os cedros corpulentos que rodeavam o planalto pela face norte. Em questão de minutos cobriria o acampamento, tornando muito difícil o avanço destes exploradores. Mas meus pensamentos voltaram aos antioxidantes. Os cálculos falharam. Se Jesus de Nazaré não retornasse ao lago imediatamente, o que poderíamos fazer? A reserva dos remédios acabava, justamente, nessa segunda-feira... E os velhos fantasmas apareceram de novo. O que aconteceria se os neurônios entrassem em colapso e provocassem um acidente cardiovascular? O que seria de nós com uma súbita perda de memória ou de visão?

Nisso eu estava quando, de repente, meus dedos tropeçaram na pequena prancha de madeira, presente de Sitio, a dona da cruz de Qazrin, que estava no fundo do saco.

Havia quase me esquecido dela. "Eu acreditava não ter nada, mas, ao descobrir a esperança, compreendi que tinha tudo." A frase, em koiné (grego internacional), me comoveu. E senti certa vergonha. Será que não aprendera nada naquelas quatro semanas junto ao rabi da Galiléia? Por que me preocupava? Segundo o Mestre, tudo estava nas mãos do Pai...

Eu me sobressaltei. Não ouvi seus passos, que se aproximavam pelas minhas costas. Umas mãos pousaram docemente nos meus ombros e, quando me virei, aqueles olhos rasgados, acolhedores, luminosos como o mel líquido, sorriram para mim. Jesus fez uma leve pressão com seus dedos grandes e finos. Eliseu, a poucos metros, contemplava a cena com curiosidade.

- Confia - exclamou o Mestre, acariciando-me com aquela voz firme e profunda. E pegando a pequena madeira, concluiu depois de alguns segundos de leitura atenta:
- Aqui diz bem claro... Quando tens esperança, quando confias, tens tudo.

Era impossível se acostumar. Aquele Homem, de repente, deslizava em nossas mentes, acompanhando os pensamentos. Suponho que esse poder fazia parte de sua recém-adquirida divindade. Para falar a verdade, nunca nos acostumamos...

- Vamos, está na hora...

E carregando sacos e tendas, o Mestre e estes exploradores partiram do mahaneh, o acampamento rústico localizado na cota 2.000, muito próxima dos cumes nevados do Hermon; um local difícil de esquecer e ao qual teríamos a felicidade de voltar oportunamente.


quarta-feira, 9 de abril de 2014

016 - inferno, negação - dan brown

– Robert, de um ponto de vista puramente científico, com base apenas na lógica e sem qualquer emoção, posso lhe afirmar sem sombra de dúvida que, a menos que haja alguma mudança drástica, o fim da nossa raça está chegando. E depressa. O mundo não vai acabar com fogo, enxofre, apocalipse ou uma guerra nuclear... vai acabar com um colapso absoluto em decorrência da quantidade de pessoas no planeta. A matemática é indiscutível.
Langdon se contraiu.

– Estudei bastante biologia e é muito normal uma espécie entrar em extinção pelo simples fato de ter superpovoado seu habitat – prosseguiu ela. – Imagine uma colônia de algas vivendo na superfície de um pequeno lago na floresta, aproveitando o perfeito equilíbrio de nutrientes do ambiente. Se não forem controladas, elas vão se reproduzir de forma tão agressiva que logo cobrirão toda a superfície do lago, impedindo a luz de entrar e, portanto, impedindo o desenvolvimento de nutrientes na água. Depois de sugar ao máximo os recursos do ambiente, essas algas morrem depressa e desaparecem sem deixar vestígios. – Ela suspirou. – Um destino semelhante pode estar reservado à humanidade. Muito mais cedo e muito mais rápido do que imaginamos.

Langdon sentiu uma angústia profunda.

– Mas... isso parece impossível.

– Impossível, não, Robert, só impensável. A mente humana tem um mecanismo primitivo de autodefesa que nega qualquer realidade estressante demais para o cérebro. É o que chamamos de negação.

– Já ouvi falar de negação, mas não acredito que exista – brincou Langdon.

Sienna revirou os olhos. – Muito engraçado! Mas pode acreditar, é muito real. A negação é um elemento essencial do mecanismo de defesa humano. Sem ela, todas as manhãs acordaríamos apavorados só de pensar em todas as maneiras como poderíamos morrer. Em vez disso, nossa mente bloqueia o medo existencial, concentrando-se em estresses com os quais podemos lidar: como não chegar atrasado no trabalho ou como pagar as contas em dia. Mesmo que tenhamos medos mais graves, de natureza existencial, nós os descartamos bem rápido para nos concentrar em tarefas simples e banalidades cotidianas.

Langdon se lembrou de uma pesquisa recente sobre os hábitos de navegação na internet dos alunos de algumas das universidades de elite nos Estados Unidos. O estudo revelou que até os usuários mais cultos demonstravam uma tendência instintiva à negação. Ao clicar em algum artigo deprimente sobre o derretimento das calotas polares ou sobre espécies em extinção, a grande maioria dos universitários se apressava em sair da página e passar para algo mais trivial que afastasse o medo de seus pensamentos. Algumas das escolhas preferidas eram manchetes esportivas, vídeos fofinhos de gatos e fofocas sobre celebridades.

– Na mitologia clássica – comentou ele –, um herói em negação é a maior manifestação de húbris e orgulho que pode existir. Não há homem mais orgulhoso do que aquele que se considera imune aos perigos do mundo. Dante concordava com isso, claro, pois, segundo ele, a soberba era o pior dos sete pecados capitais, expurgado no primeiro terraço do Purgatório.

Sienna passou alguns instantes pensando antes de continuar:

– O artigo de Zobrist acusava muitos dos líderes mundiais de estarem em um estado de extrema negação, como um avestruz com a cabeça enterrada na areia. Criticava particularmente a Organização Mundial da Saúde.

– Aposto que isso pegou bem.

– Eles reagiram comparando-o a um fanático religioso que anda pelas ruas com uma placa dizendo “O fim está próximo”.

– Tem alguns desses lá em Harvard Square.

– Pois é. E nós sempre os ignoramos porque não imaginamos que vá acontecer de verdade. Mas, acredite, o fato de a mente humana não conseguir imaginar que algo vá acontecer não significa que seja impossível.

– Você está quase parecendo uma fã de Zobrist.

– Olhe, Robert, não estou dizendo que Zobrist tem razão ao afirmar que uma praga que extermine metade das pessoas do mundo seja a resposta para o problema da superpopulação. Tampouco que devemos parar de curar os doentes. O que estou dizendo é que o caminho que estamos trilhando é uma fórmula muito simples para a destruição. O crescimento populacional é uma progressão exponencial que ocorre dentro de um sistema de espaço finito e recursos limitados. O fim vai chegar de forma muito abrupta. Não vai ser como um carro cujo combustível vai acabando aos poucos... vai ser como despencar de um precipício.

Inferno, Dan Brown. pag. 171. sobre a negação

quarta-feira, 5 de março de 2014

015 - seus pontos fracos P1

Dr. Wayne Walter Dyer (Detroit, Michigan, 10 de maio de 1940) é um autor estadounidense de livros de auto-ajuda. Passou grande parte da sua adolescência num orfanato no lado este de Detroit.

Sua obra Your Erroneous Zones, de 1976, inspirado na psicologia humanista de Abraham Maslow, já vendeu mais de 30 milhões de cópias e é um dos livros mais vendidos de todos os tempos. É dito que ele "trouxe idéias humanísticas para as massas".

Dyer é psicoterapeuta e tem doutorado na área de educação pela Wayne State University, sendo associado do curso de doutorado da St. Jonh’s University, em Nova York. É autor e coautor de diversos livros, colabora com alguns periódicos e é conferencista reconhecido nos Estados Unidos da América. Por isso é muito requisitado em entrevistas e programas de televisão e rádio.

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Sendo a morte uma proposta tão eterna e a vida incrivelmente curta, pergunte a si mesmo: "Devo evitar fazer as coisas que eu realmente quero fazer?" , "Eu vou viver minha vida como os outros querem que eu a viva?". As chances são de que sua resposta possa ser resumida em poucas palavras : Viva ... Seja você mesmo ... goza ... Ama .

 
Pode temer a sua própria morte negativamente ou usá-la para ajudá-lo a viver positivamente. Ouça Ivan Ilitch de Tolstoi, enquanto aguarda o grande nivelador, olhando um passado completamente dominado pelos outros, uma vida em que tinha desistido de ser dono de si mesmo a fim de se encaixar no sistema.

"E se toda a minha vida foi um erro?" Ocorreu-lhe o que parecia completamente impossível, especialmente ao fato de que não tinha vivido como deveria viver, poderia ser verdade. Ocorreu que seus impulsos vitais, reprimidos brutalmente por ele apenas o havia experimentado, e poderia ter sido o único verdadeiro e real em sua vida, e tudo o mais falso. E percebeu que seus deveres profissionais e toda a organização de sua vida e de sua família, todos os seus interesses sociais e oficiais, tudo isso poderia ter sido falso. Ele tentou defender e justificar para si mesmo e de repente sentiu o quão fraco era o que estava defendendo e justificando. Não havia nada para defender ... "

A próxima vez que você tiver que decidir sobre sua própria vida, que tiver que fazer uma escolha pessoal, faça uma pergunta muito importante:

"Em quanto tempo vou estar morto?" Ante esta perspectiva eterna, agora você pode decidir o que você prefere, o que escolhe, e deixar àqueles que estarão sempre vivos as preocupações, os medos, a questão de se posso permitir estas coisas em minha vida e sentir culpa.

Se você não começar a agir desta forma, já pode realmente formular para si mesmo a possibilidade concreta de viver toda a sua vida como os outros pensam que deveria ser. Certamente, se a sua estadia na terra é tão curta deveria ser pelo menos agradável. Em suma, é a sua vida, faça com ele o que quiser.

Teus pontos fracos, Wayne W. Dyer




sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

014 - caverna dos antigos P1

— Pense em você encolhendo, encolhendo, tornando-se tão pequeno quanto um grão de areia. Qual seria meu aspecto para você, então? Suponha que se torne ainda menor, tão pequeno que o grão de areia passe a ser tão grande quanto um mundo para você. — Nesse caso, o que seria de mim? — perguntou, detendo-se e passando a me fitar com um olhar penetrante. — Bem? — perguntou. — O que você veria?

Eu continuei sentado, boquiaberto, o cérebro paralisado com o pensamento, a boca aberta como se fosse um peixe que haviam acabado de atirar à terra.

— Você veria, Lobsang — disse o Lama —, um grupo de mundos amplamente espaçados, flutuando nas trevas. Devido a seu tamanho minúsculo, você veria as moléculas de meu corpo, como mundos separados, com espaço imenso entre elas. Você veria mundos girando ao redor de mundos, você veria "sóis", que seriam as moléculas de certos centros psíquicos, você veria um universo!

Meu cérebro rangia, eu era capaz de jurar que a "maquinaria" acima de minhas sobrancelhas tinha um estremecimento convulsivo, com o esforço que eu despendia a fim de acompanhar todo aquele conhecimento estranho e emocionante.

O meu guia, o Lama Mingyar Dondup, estendeu a mão à frente, e com gentileza ergueu meu queixo.

— Lobsang! — disse, com uma risadinha. — Os seus olhos estão ficando vesgos, no esforço por me acompanhar.

Voltou a sentar-se, rindo, e deu-me alguns momentos para que eu me pudesse recuperar um pouco. Em seguida, exclamou:

— Olhe o tecido de seu manto. Apalpe-o!

Obedeci, sentindo-me notavelmente aparvalhado enquanto fitava o traje velho e esfarrapado que eu usava. O Lama observou:

— É tecido, algo liso ao tato. Você não pode ver através dele, mas imagine que o examina por um vidro de aumento, que amplie dez vezes a visão. Pense nos fios grossos de lã iaque, cada qual, dez vezes mais grosso do que você está vendo, agora. Conseguiria perceber a luz entre os fios, mas amplie os mesmos um milhão de vezes, e conseguirá passar entre dois a cavalo, a não ser que cada fio se tornasse grande demais para escalar!



Caverna dos Antigos, Lobsang Rampa

sábado, 22 de fevereiro de 2014

013 - um lugar para os excluídos

Hellinger desenvolveu seu método a partir de observações empíricas, fundamentadas em diversas formas de psicoterapia familiar, dos padrões de comportamento que se repetem nas famílias e grupos familiares ao longo de gerações. Esse filósofo deparou-se com um fenômeno descortinado pela psicoterapeuta americana Virginia Satir nos anos 70, quando esta trabalhava com o seu método das “esculturas familiares”: que uma pessoa estranha, convocada a representar um membro da família, passa a se sentir exatamente como a pessoa a qual representa, às vezes reproduzindo, de forma exata, sintomas físicos da pessoa a qual representa, mesmo sem saber nada a respeito dela.

Hellinger descobriu alguns pontos esclarecedores sobre a dinâmica da sensação de “consciência leve” e “consciência pesada”, e propôs uma “consciência de clã” (por ele também chamada de “alma”-- no sentido de algo que dá movimento , que “anima”), que se norteia por “ordens” arcaicas simples, que ele denominou de “ordens do amor”, e demonstrou a forma como essa consciência nos enreda inconscientemente na repetição do destino de outros membros do grupo familiar. Essas ordens do amor referem-se a três princípios norteadores:

1 - a necessidade de pertencer ao grupo/clã
2 - a necessidade de equilíbrio entre o dar e o receber nos relacionamentos
3 - a necessidade de hierarquia dentro do grupo/clã

As ordens do amor são forças dinâmicas e articuladas que atuam em nossas famílias ou relacionamentos íntimos. Percebemos a desordem dessas forças sob a forma de sofrimento e doença. Em contrapartida, percebemos seu fluxo harmonioso como uma sensação de estar bem no mundo.


Não tive tempo algum para pensar em grandes coisas sobre minha “realização pessoal”, como hoje se diz. No fundo, cresci sem juventude. Não havia isso naquele tempo. Essa fase não aconteceu comigo. Quando voltei da guerra, aos 20 anos, cerca da metade de meus colegas estavam mortos. Também meu irmão não retomou da guerra, e as cidades jaziam em ruínas. Já não é possível sentir hoje o que significou. O sentimento de vida era totalmente diferente, mas dele vem também uma força especial.

Nesse tempo eu fui tomado a serviço, não sei por que forças. Fui utilizado para alguma coisa. Em cada sistema existe uma certa pressão para completar algo inconcluso. Por exemplo, talvez o sistema pressione algum descendente para resolver algo por seus antepassados. O sistema compele alguém, seja numa direção, que chamamos positiva, seja numa direção negativa, sem que o indivíduo possa decidir.

O que é “positivo” e o que é “negativo”?

Positivo é quando alguém faz algo de bom pelos outros, simplesmente a vida ordinária. Alguém se casa, tem filhos, promove-os, eles se tornam autônomos - isso é algo grande. Essa pessoa está sintonizada com um movimento bom, positivo.

Uma outra pessoa, numa outra situação, talvez se torne assassina, e isso de forma inevitável, sem liberdade de decisão. Ela também é tomada a serviço por uma instância superior.
O senhor fala de “positivo” e “negativo”. Isso soa como uma avaliação. Isso se entende nesse contexto, pois se falou de um assassino.

Digo isso apenas porque costumamos fazê-lo. Para mim o processo é o mesmo, ambos não são livres, não são livres no bem e não são livres no mal. Nessa medida, não dou preferência a nenhum. É simplesmente do jeito que é. São destinos que tocam a cada um. É o próprio sistema que compele uma pessoa a isso. Numa escala mais ampla, existem movimentos poderosos que arrebatam as pessoas e as carregam consigo ou que - como o nacional-socialismo ou o comunismo - empolgam nações inteiras.

Um lugar para os excluídos, Bert Hellinger

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

012 - o cérebro e o significado da vida

Pessoas experimentam percepções como azul, sensações como dor, emoções como felicidade, e pensamentos como acreditar que a primavera finalmente chegou. Será que a psicologia e a neurociência serão um dia capazes de explicar como as pessoas têm esses tipos de consciência?

A psicologia e a neurociência têm feito grandes progressos na explicação de muitos processos mentais, como resolução de problemas, aprendizagem e uso da língua. Mas muitas pessoas ainda têm a intuição de que, não importa o quanto a ciência cognitiva progrida, ela ainda será incapaz de lidar com o mistério da consciência. Nesta visão, todos nós temos uma compreensão básica da experiência consciente através de nossos próprios episódios de percepção, sensação, emoção e reflexão. Mas existe um abismo explanatório intransponível que impede a ciência de trazer a consciência para dentro do seu âmbito.

A ciência seria de fato incapaz de explicar a consciência se as experiências mentais fossem propriedades de almas imateriais, cujas operações permaneceriam totalmente misteriosas a partir da perspectiva dos mecanismos que os físicos, químicos, biólogos e psicólogos utilizam para explicar o que acontece. Mas existem insuficientes evidências que sustentem a visão de que mentes são qualquer coisa além de cérebros, desta maneira a perspectiva não-materialista não parece gerar uma barreira para a explicação da consciência.

Outra possibilidade é que a consciência seja muito complicada para ser compreendida por mentes humanas, que evoluíram para encontrar comida, água, abrigo e parceiros em ambientes simples. Mas essas mesmas mentes foram capazes de criar maravilhosas ferramentas culturais, tais como a linguagem escrita, a matemática e instrumentos científicos que vão desde os telescópios às máquinas de imageamento cerebral. Portanto, seria prematuro, por uma escala de séculos, desistir da tentativa de encontrar explicações científicas para os processos mentais, incluindo a consciência.

De fato, importantes progressos estão sendo alcançados, tanto experimental quanto teoricamente, na exploração dos mistérios da consciência. Os que duvidam disso devem verificar os sites de alguns dos principais pesquisadores da consciência, que incluem:

António Damásio, em L.A.
Stanislas Dehaene, Paris
Christof Koch, Pasadena
Giulio Tononi, Madison

Através do trabalho desenvolvido por eles e por outros, estamos começando a vislumbrar como a consciência poderia ser uma propriedade mental que emerge de um processamento complexo envolvendo bilhões de neurônios em dezenas de áreas cerebrais que interagem.

Em meu livro, O Cérebro e o Significado da Vida, esboço de um relato de como um tipo de consciência – a experiência emocional – pode surgir por meio das interações de múltiplas áreas do cérebro que lidam simultaneamente com as representações perceptuais de situações externas, avaliações cognitivas da significância dessas situações para os objetivos pessoais de alguém e percepções internas dos estados corporais. Nesta perspectiva, a consciência não é uma função especial da mente, mas sim o resultado de processos interativos que unem as percepções e avaliações. Como tais ligações e interações ocorrem é um tópico corrente de investigação na psicologia e na neurociência.

Assim, vejo razões para entusiasmo com as perspectivas de uma teoria científica da consciência. Pode levar décadas ou mesmo séculos antes que tenhamos boas explicações de todos os diferentes tipos de experiências que surgem na percepção, sensação, emoção e reflexão. Mas as peças dos quebra-cabeças estão começando a surgir, e será muito emocionante quando os cientistas conseguirem colocá-las todas juntas. Então poderemos dizer com confiança que a consciência é um processo cerebral.

Paul R. Thagard é professor de Filosofia e Diretor do Programa de Ciência Cognitiva da Universidade de Waterloo, no Canadá. Seus livros incluem The Brain and the Meaning of Life, Hot Thought: Mechanisms and Applications of Emotional Cognition, and Mind: Introduction to Cognitive Science.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

011 - o bom combate

[...] 

A doença nos força a encontrar quem somos, sobretudo os aspectos mais sublimes que eram ocultados pelo ego. Portanto a doença é força que destrói as ilusões [006MH5], mas se não quiser enfrentar este bom combate [010/011MH3], as suas opções criarão um estado mórbido e autoalimentado por culpas e ideias que são reflexos de suas crenças de que é incapaz de aprender com a oportunidade. [005MH5]

Quanto a mim, já fui oferecido em libação, e chegou o tempo de minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Desde já me está reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, justo juiz, naquele dia; e não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor sua aparição (2Timóteo 4,6-8).

Para entender essa passagem poderíamos lembrar aquilo que Paulo escreve no início da primeira carta a Timóteo, recordando as suas responsabilidades:

Esta é a instrução que te confio, Timóteo meu filho, segundo as profecias pronunciadas outrora sobre ti: combate, firmado nelas, o bom combate, com fé e boa consciência; pois alguns, rejeitando a boa consciência, naufragaram na fé (1Timóteo 1,18-19).

Fica claro que o combate de Paulo não é literalmente uma batalha, uma guerra, mas uma imagem que descreve a vida do cristão, o seu comportamento sobretudo em relação ao perseverar na fé. A vida do cristão é feita de escolhas e a liberdade que nos foi dada faz com que cada vez tenhamos que decidir qual estrada tomar; o bom cristão deve seguir fiel ao ensinamento divino. Esse processo é chamado por Paulo de "combate". O êxito final vai defini-lo como "bom" ou "mau".

http://www.abiblia.org/ver.php?id=6674#.UtT_UvuFfgk

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

010 - diário de um mago - paulo coelho

Em 1986, fiz pela primeira e única vez a peregrinação conhecida como Caminho de Santiago, experiência que descrevo em meu primeiro livro, “O Diário de um Mago”. Tínhamos acabado de subir uma pequena elevação e meu guia, a quem chamo de Petrus (embora não seja esse o seu nome), me disse:

– O homem nunca pode parar de sonhar; o sonho é o alimento da alma, como a comida é o alimento do corpo. Muitas vezes, em nossa existência, vemos nossos sonhos desfeitos e nossos desejos frustrados, mas é preciso continuar sonhando, senão nossa alma morre. Muito sangue já rolou no campo diante dos seus olhos, e aí foram travadas algumas das batalhas mais cruéis da Reconquista. Quem estava com a razão, ou com a verdade, não tem importância: o importante é saber que ambos os lados estavam combatendo o Bom Combate.

O Bom Combate é aquele que é travado em nome de nossos sonhos. Quando eles explodem em nós com todo o seu vigor – na juventude – nós temos muita coragem, mas ainda não aprendemos a lutar.

Depois de muito esforço, terminamos aprendendo a lutar, e então já não temos a mesma coragem para combater. Por causa disto, nos voltamos contra nós e combatemos a nós mesmos, e passamos a ser nosso pior inimigo. Dizemos que nossos sonhos eram infantis, difíceis de realizar, ou fruto de nosso desconhecimento das realidades da vida. Matamos nossos sonhos porque temos medo de combater o Bom Combate.

O primeiro sintoma de que estamos matando nossos sonhos é a falta de tempo. As pessoas mais ocupadas que conheci na minha vida sempre tinham tempo para tudo. As que nada faziam estavam sempre cansadas, não davam conta do pouco trabalho que precisavam realizar, e se queixavam de que o dia era curto demais: na verdade, elas tinham medo de combater o Bom Combate.

O segundo sintoma da morte de nossos sonhos são nossas certezas. Porque não queremos aceitar a vida como uma grande aventura a ser vivida, passamos a nos julgar sábios, justos e corretos no pouco que pedimos da existência. Olhamos para além das muralhas do nosso dia-dia, ouvimos o ruído de lanças que se quebram, o cheiro de suor e de pólvora, as grandes quedas e os olhares sedentos de conquista dos guerreiros. Mas nunca percebemos a alegria, a imensa Alegria que está no coração de quem está lutando, porque para estes não importa nem a vitória nem a derrota, importa apenas combater o Bom Combate.

Finalmente, o terceiro sintoma da morte de nossos sonhos é a Paz. A vida passa a ser uma tarde de Domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar. Achamos então que estamos maduros, deixamos de lado as fantasias da infância, e conseguimos nossa realização pessoal e profissional. Mas na verdade, no íntimo de nosso coração, sabemos que o que aconteceu foi que renunciamos à luta por nossos sonhos, a combater o Bom Combate.

Quando renunciamos aos nossos sonhos e encontramos a paz, temos um pequeno período de tranquilidade. Mas os sonhos mortos começam a apodrecer dentro de nós, e infestar todo o ambiente em que vivemos.

Começamos a nos tornar cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir esta crueldade contra nós mesmos. Surgem as doenças e as psicoses. O que queríamos evitar no combate – a decepção e a derrota – passa a ser o único legado de nossa covardia. E um belo dia, os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, que nos livra de nossas certezas, de nossas ocupações, e daquela terrível paz das tardes de domingo.”

do livro “O Diário de um Mago”, http://paulocoelhoblog.com/2012/03/17/petrus-2/

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

009 - a arte da felicidade - Dalai Lama

— A compaixão pode ser definida aproximadamente em termos de um estado mental que é não violento, não prejudicial e não agressivo — respondeu o Dalai-Lama. — E uma atitude mental baseada no desejo de que os outros se livrem do seu sofrimento, e esta associada a uma sensação de compromisso, responsabilidade e respeito para com o outro. Quando se examina a definição de compaixão, da palavra Tse-wa em tibetano, essa palavra também apresenta um sentido de se tratar de um estado mental que inclui um desejo de coisas positivas para a própria pessoa. Ao desenvolver a compaixão, talvez pudéssemos começar pelo desejo de que nos mesmos ficássemos livres do sofrimento, para então torrear esse sentimento natural voltado para nós mesmos, cultivá-lo, aprimorá-lo e ampliá-lo de modo a que incluísse os outros e se aplicasse a eles. “Ora, quando as pessoas falam de compaixão, creio que costuma haver um perigo de confundir a compaixão com o apego. Por isso, quando estudamos a compaixão, devermos primeiro traçar uma distinção entre dois tipos de amor ou compaixão.


Um tipo de compaixão tem um que de apego — o sentimento de controlar alguém, ou de amar alguém para que essa pessoa retribua nosso amor. Esse tipo comum de amor ou compaixão é totalmente parcial e tendencioso.

Existe, porém, um outro tipo de compaixão que e desprovido desse apego. É a compaixão verdadeira. Esse tipo de compaixão não se baseia tanto no fato de que essa pessoa ou aquela me é cara. Pelo contrário, a verdadeira compaixão tem por base o raciocínio de que todo ser humano tem um desejo inato de ser feliz e de superar o sofrimento, exatamente como eu. E, exatamente como eu, eles tem o direito natural de realizar essa aspiração fundamental. Com base no reconhecimento dessa igualdade e dessa característica comum, a pessoa desenvolve uma noção de afinidade e intimidade com os outros. Com esse tipo de fundamento, pode-se sentir compaixão, independentemente de se encarar a pessoa como amiga ou como inimiga. Ele se apoia nos direitos fundamentais do outro, em vez de na nossa projeção mental. A partir dele, portanto, geramos amor e compaixão. Essa e a verdadeira compaixão. 

O Dalai-Lama respondeu num tom resoluto. 

— Para começar, creio que há uma qualidade diferente entre o sentimento do amor verdadeiro, ou da compaixão verdadeira, e o amor baseado no apego. Não se trata do mesmo sentimento. O sentimento da verdadeira compaixão e muito mais forte, muito mais amplo; e tem uma qualidade muito profunda. Da mesma forma, a compaixão e o amor verdadeiros são muito mais estáveis, mais confiáveis.

— E — disse o Dalai-Lama. — Na realidade, em certo sentido poderíamos definir a compaixão como a sensação de incapacidade de suportar o sofrimento de outra pessoa, de outro ser senciente. E para gerar esse sentimento, e preciso primeiro avaliar a gravidade ou intensidade do sofrimento do outro. Por isso, creio que quanto mais se entenda o sofrimento, bem como os vários tipos de sofrimento aos quais somos sujeitos, tanto maior será nosso grau de compaixão.

Por que iríamos querer assumir o sofrimento do outro quando não queremos nem o nosso? Quer dizer, a maioria de nós faz enormes esforços para evitar nossa própria dor ou sofrimento, até mesmo ao ponto de ingerir drogas e assim por diante... Por que então iríamos deliberadamente assumir o sofrimento de outra pessoa? — Indaguei. O Dalai-Lama respondeu sem hesitação. 

— Creio haver uma diferença significativa entre nosso próprio sofrimento e o sofrimento que poderíamos experimentar num estado de compaixão, no qual assumimos sobre nossos ombros o sofrimento de terceiros: uma diferença qualitativa. — Ele fez uma pausa e então, como se estivesse mirando meus próprios sentimentos naquele instante, sem nenhum esforço, prosseguiu. — Quando pensamos no nosso próprio sofrimento, existe uma sensação de que estamos totalmente dominados. Há uma sensação de estarmos  sobrecarregados, de estarmos oprimidos por alguma coisa. Uma sensação de desamparo. Ocorre um entorpecimento quase como se nossas faculdades estivessem embotadas. Ora, ao gerar a compaixão, quando se esta assumindo a dor de outra pessoa, pode-se também de inicio vivenciar um certo grau de desconforto, uma sensação de constrangimento ou de incapacidade de suportar a situação. Entretanto, no caso da compaixão, o sentimento e muito diferente: subjacente a sensação de constrangimento existe um grau muito alto de atenção e determinação porque a pessoa esta de modo voluntário e deliberado aceitando o sofrimento do outro por um objetivo maior.  Existe um sentimento de ligação e compromisso, uma disposição a estender a mão aos outros, uma sensação de energia em ver de entorpecimento. Isso é semelhante ao caso de um atleta. Enquanto se submete a treinos rigorosos, o atleta pode sofrer muito: fazendo ginástica, suando, esforçando-se. Creio que essa seja uma experiência muito dolorosa e extenuante. Já o atleta não a considera uma experiência dolorosa. Ele a encara como uma grande realização, uma experiência associada a uma sensação de alegria. Porém, se a mesma pessoa fosse sujeita a algum outro esforço físico que não fizesse parte do seu treinamento atlético, ela poderia pensar. Ai, por que me fizeram passar por essa terrível tortura? Portanto, a atitude mental faz uma enorme diferença.



A arte da Felicidade, Dalai Lama e Howard Cutler.

 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

008 - o livro das cinco sombras

— “Saber e não fazer ainda é não saber”. Pondere um tempo para assimilar esta Verdade, pois tudo tem um porquê. Se você não tiver um estímulo, não anda para frente. Enquanto ficar inativo virá desafios para que progrida. Como você espera conseguir algo se fica no comodismo de querer ser humilde – só porque o infeliz tem o reino de Deus? Inspire-se em Deus que é abundância. E as respostas chegam.

— Para mim é como se “o Universo conspirasse ao meu favor”. — estas ideias eu já compreendia, porém como fazer acontecer?

— Toda a matéria é composta de Nada. Forma é vazio, vazio é forma.

Estes conceitos sempre me pareceram tão vagos, difusos. — Se tudo que eu percebo através dos meus sentidos – inclusive os espirituais – não passa de ilusão.  Assim, abandonar o apego ao ego, não me torna um impassível ser coexistindo em um mundo nulo?

— Diga-me você! O que acontece quando abandonamos o ego? — voltamos a discutir o evento com ares de iluminação. — Eu deveria mencionar que, quando falamos de um estado mental sereno ou de paz de espírito, não deveríamos confundir isso com um estado mental totalmente insensível, apático. Ter um estado de espírito tranquilo ou calmo não significa ser completamente desligado ou ter a mente totalmente vazia. A paz de espírito ou a serenidade têm como origem o afeto e a compaixão. Nisso há um nível muito alto de sensibilidade e sentimento. Desde que falte a disciplina interior que traz a serenidade mental, não importa quais sejam as condições ou meios externos que normalmente se considerariam necessários para a felicidade, eles nunca nos darão a sensação de alegria e felicidade que buscamos. Por outro lado, quando dispomos dessa qualidade interior, uma serenidade mental, uma certa estabilidade interna, nesse caso, mesmo que faltem vários recursos externos que normalmente se considerariam necessários para a felicidade, ainda é possível levar uma vida feliz e prazerosa. Então, torna-se nulo? Isola-se e cai em meditação profunda? Ou descobre a verdadeira imagem do ser?!

Por Mateus Göettees