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terça-feira, 15 de abril de 2014

017 - cavalo de tróia 7.11 - j.j, benítez

O Mestre? Eliseu? Onde diabos estavam? Inspecionei o aglomerado de neblina. Prosseguia a descida, lambendo os cedros corpulentos que rodeavam o planalto pela face norte. Em questão de minutos cobriria o acampamento, tornando muito difícil o avanço destes exploradores. Mas meus pensamentos voltaram aos antioxidantes. Os cálculos falharam. Se Jesus de Nazaré não retornasse ao lago imediatamente, o que poderíamos fazer? A reserva dos remédios acabava, justamente, nessa segunda-feira... E os velhos fantasmas apareceram de novo. O que aconteceria se os neurônios entrassem em colapso e provocassem um acidente cardiovascular? O que seria de nós com uma súbita perda de memória ou de visão?

Nisso eu estava quando, de repente, meus dedos tropeçaram na pequena prancha de madeira, presente de Sitio, a dona da cruz de Qazrin, que estava no fundo do saco.

Havia quase me esquecido dela. "Eu acreditava não ter nada, mas, ao descobrir a esperança, compreendi que tinha tudo." A frase, em koiné (grego internacional), me comoveu. E senti certa vergonha. Será que não aprendera nada naquelas quatro semanas junto ao rabi da Galiléia? Por que me preocupava? Segundo o Mestre, tudo estava nas mãos do Pai...

Eu me sobressaltei. Não ouvi seus passos, que se aproximavam pelas minhas costas. Umas mãos pousaram docemente nos meus ombros e, quando me virei, aqueles olhos rasgados, acolhedores, luminosos como o mel líquido, sorriram para mim. Jesus fez uma leve pressão com seus dedos grandes e finos. Eliseu, a poucos metros, contemplava a cena com curiosidade.

- Confia - exclamou o Mestre, acariciando-me com aquela voz firme e profunda. E pegando a pequena madeira, concluiu depois de alguns segundos de leitura atenta:
- Aqui diz bem claro... Quando tens esperança, quando confias, tens tudo.

Era impossível se acostumar. Aquele Homem, de repente, deslizava em nossas mentes, acompanhando os pensamentos. Suponho que esse poder fazia parte de sua recém-adquirida divindade. Para falar a verdade, nunca nos acostumamos...

- Vamos, está na hora...

E carregando sacos e tendas, o Mestre e estes exploradores partiram do mahaneh, o acampamento rústico localizado na cota 2.000, muito próxima dos cumes nevados do Hermon; um local difícil de esquecer e ao qual teríamos a felicidade de voltar oportunamente.


quarta-feira, 9 de abril de 2014

016 - inferno, negação - dan brown

– Robert, de um ponto de vista puramente científico, com base apenas na lógica e sem qualquer emoção, posso lhe afirmar sem sombra de dúvida que, a menos que haja alguma mudança drástica, o fim da nossa raça está chegando. E depressa. O mundo não vai acabar com fogo, enxofre, apocalipse ou uma guerra nuclear... vai acabar com um colapso absoluto em decorrência da quantidade de pessoas no planeta. A matemática é indiscutível.
Langdon se contraiu.

– Estudei bastante biologia e é muito normal uma espécie entrar em extinção pelo simples fato de ter superpovoado seu habitat – prosseguiu ela. – Imagine uma colônia de algas vivendo na superfície de um pequeno lago na floresta, aproveitando o perfeito equilíbrio de nutrientes do ambiente. Se não forem controladas, elas vão se reproduzir de forma tão agressiva que logo cobrirão toda a superfície do lago, impedindo a luz de entrar e, portanto, impedindo o desenvolvimento de nutrientes na água. Depois de sugar ao máximo os recursos do ambiente, essas algas morrem depressa e desaparecem sem deixar vestígios. – Ela suspirou. – Um destino semelhante pode estar reservado à humanidade. Muito mais cedo e muito mais rápido do que imaginamos.

Langdon sentiu uma angústia profunda.

– Mas... isso parece impossível.

– Impossível, não, Robert, só impensável. A mente humana tem um mecanismo primitivo de autodefesa que nega qualquer realidade estressante demais para o cérebro. É o que chamamos de negação.

– Já ouvi falar de negação, mas não acredito que exista – brincou Langdon.

Sienna revirou os olhos. – Muito engraçado! Mas pode acreditar, é muito real. A negação é um elemento essencial do mecanismo de defesa humano. Sem ela, todas as manhãs acordaríamos apavorados só de pensar em todas as maneiras como poderíamos morrer. Em vez disso, nossa mente bloqueia o medo existencial, concentrando-se em estresses com os quais podemos lidar: como não chegar atrasado no trabalho ou como pagar as contas em dia. Mesmo que tenhamos medos mais graves, de natureza existencial, nós os descartamos bem rápido para nos concentrar em tarefas simples e banalidades cotidianas.

Langdon se lembrou de uma pesquisa recente sobre os hábitos de navegação na internet dos alunos de algumas das universidades de elite nos Estados Unidos. O estudo revelou que até os usuários mais cultos demonstravam uma tendência instintiva à negação. Ao clicar em algum artigo deprimente sobre o derretimento das calotas polares ou sobre espécies em extinção, a grande maioria dos universitários se apressava em sair da página e passar para algo mais trivial que afastasse o medo de seus pensamentos. Algumas das escolhas preferidas eram manchetes esportivas, vídeos fofinhos de gatos e fofocas sobre celebridades.

– Na mitologia clássica – comentou ele –, um herói em negação é a maior manifestação de húbris e orgulho que pode existir. Não há homem mais orgulhoso do que aquele que se considera imune aos perigos do mundo. Dante concordava com isso, claro, pois, segundo ele, a soberba era o pior dos sete pecados capitais, expurgado no primeiro terraço do Purgatório.

Sienna passou alguns instantes pensando antes de continuar:

– O artigo de Zobrist acusava muitos dos líderes mundiais de estarem em um estado de extrema negação, como um avestruz com a cabeça enterrada na areia. Criticava particularmente a Organização Mundial da Saúde.

– Aposto que isso pegou bem.

– Eles reagiram comparando-o a um fanático religioso que anda pelas ruas com uma placa dizendo “O fim está próximo”.

– Tem alguns desses lá em Harvard Square.

– Pois é. E nós sempre os ignoramos porque não imaginamos que vá acontecer de verdade. Mas, acredite, o fato de a mente humana não conseguir imaginar que algo vá acontecer não significa que seja impossível.

– Você está quase parecendo uma fã de Zobrist.

– Olhe, Robert, não estou dizendo que Zobrist tem razão ao afirmar que uma praga que extermine metade das pessoas do mundo seja a resposta para o problema da superpopulação. Tampouco que devemos parar de curar os doentes. O que estou dizendo é que o caminho que estamos trilhando é uma fórmula muito simples para a destruição. O crescimento populacional é uma progressão exponencial que ocorre dentro de um sistema de espaço finito e recursos limitados. O fim vai chegar de forma muito abrupta. Não vai ser como um carro cujo combustível vai acabando aos poucos... vai ser como despencar de um precipício.

Inferno, Dan Brown. pag. 171. sobre a negação