— A compaixão pode ser definida aproximadamente em termos de um estado mental que é não violento, não prejudicial e não agressivo — respondeu o Dalai-Lama. — E uma atitude mental baseada no desejo de que os outros se livrem do seu sofrimento, e esta associada a uma sensação de compromisso, responsabilidade e respeito para com o outro. Quando se examina a definição de compaixão, da palavra Tse-wa em tibetano, essa palavra também apresenta um sentido de se tratar de um estado mental que inclui um desejo de coisas positivas para a própria pessoa. Ao desenvolver a compaixão, talvez pudéssemos começar pelo desejo de que nos mesmos ficássemos livres do sofrimento, para então torrear esse sentimento natural voltado para nós mesmos, cultivá-lo, aprimorá-lo e ampliá-lo de modo a que incluísse os outros e se aplicasse a eles. “Ora, quando as pessoas falam de compaixão, creio que costuma haver um perigo de confundir a compaixão com o apego. Por isso, quando estudamos a compaixão, devermos primeiro traçar uma distinção entre dois tipos de amor ou compaixão.
Um tipo de compaixão tem um que de apego — o sentimento de controlar alguém, ou de amar alguém para que essa pessoa retribua nosso amor. Esse tipo comum de amor ou compaixão é totalmente parcial e tendencioso.
Existe, porém, um outro tipo de compaixão que e desprovido desse apego. É a compaixão verdadeira. Esse tipo de compaixão não se baseia tanto no fato de que essa pessoa ou aquela me é cara. Pelo contrário, a verdadeira compaixão tem por base o raciocínio de que todo ser humano tem um desejo inato de ser feliz e de superar o sofrimento, exatamente como eu. E, exatamente como eu, eles tem o direito natural de realizar essa aspiração fundamental. Com base no reconhecimento dessa igualdade e dessa característica comum, a pessoa desenvolve uma noção de afinidade e intimidade com os outros. Com esse tipo de fundamento, pode-se sentir compaixão, independentemente de se encarar a pessoa como amiga ou como inimiga. Ele se apoia nos direitos fundamentais do outro, em vez de na nossa projeção mental. A partir dele, portanto, geramos amor e compaixão. Essa e a verdadeira compaixão.
O Dalai-Lama respondeu num tom resoluto.
— Para começar, creio que há uma qualidade diferente entre o sentimento do amor verdadeiro, ou da compaixão verdadeira, e o amor baseado no apego. Não se trata do mesmo sentimento. O sentimento da verdadeira compaixão e muito mais forte, muito mais amplo; e tem uma qualidade muito profunda. Da mesma forma, a compaixão e o amor verdadeiros são muito mais estáveis, mais confiáveis.
— E — disse o Dalai-Lama. — Na realidade, em certo sentido poderíamos definir a compaixão como a sensação de incapacidade de suportar o sofrimento de outra pessoa, de outro ser senciente. E para gerar esse sentimento, e preciso primeiro avaliar a gravidade ou intensidade do sofrimento do outro. Por isso, creio que quanto mais se entenda o sofrimento, bem como os vários tipos de sofrimento aos quais somos sujeitos, tanto maior será nosso grau de compaixão.
Por que iríamos querer assumir o sofrimento do outro quando não queremos nem o nosso? Quer dizer, a maioria de nós faz enormes esforços para evitar nossa própria dor ou sofrimento, até mesmo ao ponto de ingerir drogas e assim por diante... Por que então iríamos deliberadamente assumir o sofrimento de outra pessoa? — Indaguei. O Dalai-Lama respondeu sem hesitação.
— Creio haver uma diferença significativa entre nosso próprio sofrimento e o sofrimento que poderíamos experimentar num estado de compaixão, no qual assumimos sobre nossos ombros o sofrimento de terceiros: uma diferença qualitativa. — Ele fez uma pausa e então, como se estivesse mirando meus próprios sentimentos naquele instante, sem nenhum esforço, prosseguiu. — Quando pensamos no nosso próprio sofrimento, existe uma sensação de que estamos totalmente dominados. Há uma sensação de estarmos sobrecarregados, de estarmos oprimidos por alguma coisa. Uma sensação de desamparo. Ocorre um entorpecimento quase como se nossas faculdades estivessem embotadas. Ora, ao gerar a compaixão, quando se esta assumindo a dor de outra pessoa, pode-se também de inicio vivenciar um certo grau de desconforto, uma sensação de constrangimento ou de incapacidade de suportar a situação. Entretanto, no caso da compaixão, o sentimento e muito diferente: subjacente a sensação de constrangimento existe um grau muito alto de atenção e determinação porque a pessoa esta de modo voluntário e deliberado aceitando o sofrimento do outro por um objetivo maior. Existe um sentimento de ligação e compromisso, uma disposição a estender a mão aos outros, uma sensação de energia em ver de entorpecimento. Isso é semelhante ao caso de um atleta. Enquanto se submete a treinos rigorosos, o atleta pode sofrer muito: fazendo ginástica, suando, esforçando-se. Creio que essa seja uma experiência muito dolorosa e extenuante. Já o atleta não a considera uma experiência dolorosa. Ele a encara como uma grande realização, uma experiência associada a uma sensação de alegria. Porém, se a mesma pessoa fosse sujeita a algum outro esforço físico que não fizesse parte do seu treinamento atlético, ela poderia pensar. Ai, por que me fizeram passar por essa terrível tortura? Portanto, a atitude mental faz uma enorme diferença.
A arte da Felicidade, Dalai Lama e Howard Cutler.




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