A Terceira Visão (The Third Eye, 1956)
Numa narrativa entremeada por detalhes sobre a vida no Tibete - os costumes e rituais populares que resiste a ocupação chinesa -, ele descreve sua experiência mística e os dons paranormais despertados após sua iniciação religiosa, aos 7 anos de idade, até sua partida de Lhasa, em 1927.
[...]Talvez, seja interessante, nesta altura da minha narrativa, fornecer alguns pormenores acerca do nosso estilo de vida. A nossa religião é uma variante do budismo, mas não existe nas línguas ocidentais qualquer palavra pela qual se possa traduzi-la literalmente. Referimo-nos a ela como "A Religião", e aos que praticam a nossa fé chamamos "internos", enquanto a todos os outros chamamos "externos". A palavra mais aproximada existente no Ocidente é "lamaísmo". Difere do budismo por ser uma religião de esperança e de crença no futuro. Para nós, o budismo parece uma doutrina negativa, uma religião de desespero. Não faz parte das nossas crenças que um pai onisciente observe e guarde toda a gente por toda a parte.
Os tibetanos que estudaram os verdadeiros ensinamentos de Buda nunca oram a pedir mercês ou favores; limitam-se a pedir que lhes seja dado contar com a justiça dos homens. Um Ente Supremo, por natureza a própria essência da justiça, não pode mostrar compaixão por um e negá-la a outro, porque tal seria a negação da justiça. Orar a pedir mercês ou favores, com promessas de ouro ou de incenso se o pedido for atendido, é inferir que a salvação está ao alcance do que mais puder pagar,que Deus está precisando de dinheiro e pode ser "comprado". O homem pode mostrar compaixão pelo homem, mas só raramente o faz; o Ente Supremo só pode mostrar justiça. Nós somos almas imortais. A nossa oração:Om! ma-ipad-me Hum! — adiante transcrita — tem sido por vezes traduzida literalmente como:"Salve, ó Joia no Lótus!" Mas os que conhecem melhor os textos sabem que o verdadeiro significado é: "Salve, ó Ser Intimo e Superior no Homem!" Não existe a morte. Assim como ao fim do dia um homem despe as suas roupas, assim a alma se desfaz do corpo quando este dorme. Assim como um terno é posto de lado quando está surrado, assim a alma se desembaraça do corpo quando este está gasto e velho. A morte é nascimento. Morrer é simplesmente o ato de nascer num outro plano de existência. O homem, ou melhor, o espírito do homem é eterno. O corpo é um mero invólucro temporário que cobre o espírito, que é escolhido de acordo com a missão a cumprir na Terra.
A aparência exterior é, portanto, de pouquíssima importância. O que importa é a alma que está lá dentro. Um grande profeta pode aparecer nas vestes de um mendigo, enquanto um homem que muito pecou na sua vida anterior pode desta vez nascer em riqueza, para experimentar ever se continua a pecar quando não tem a desculpa da pobreza para o tentar.Om! ma-nipad-me Hum!"A Roda da Vida" — é assim que designamos o ato de nascer,viver, voltar à condição espiritual e, em devido tempo, renascer em condições e circunstâncias diferentes. Um homem pode sofrer muito durante a sua existência, e isso não significa necessariamente que na sua vida anterior foi um pecador: talvez essa seja a melhor maneira de aprender certas coisas. A experiência pessoal é o melhor mestre! Uma pessoa que se suicida pode renascer para viver os anos cortados prematuramente, mas não se segue que todos os que morrem novos ou quando bebês foram suicidas em vidas anteriores. A Roda da Vida aplica-se a todos, mendigos e reis, homens e mulheres, brancos e negros. A Roda, é claro, não passa de um símbolo, que serve para tornar a ideia mais simples para aqueles que não têm tempo suficiente para estudar o assunto mais afundo. É impossível explicar as crenças tibetanas em um ou dois parágrafos; o Kan-gyur, as Escrituras tibetanas, consiste em mais de cem volumes sobre o assunto, e mesmo esses não o tratam exaustivamente. Há muitos outros livros guardados em lamastérios remotos e que só aos iniciados é dado ler. [...]Das experiências do budismo, o lamaísmo ou budismo tibetano, considera que todas as coisas, boas e más, tem o seu propósito. Ao considerar que o objetivo das ações, boas ou más, é de realizar os desejos emanados pelos pensamentos, temos que aceitar que as nossas ações, baseadas em suposições e modelos, possam impedir o fluxo natural das ações. Existem um choque entre o que nós, como ego, desejamos - e se baseia em suposições, mesmo as certezas são ilusórias - e o que o espírito imortal deseja. Ir contra o desejo da alma cria infelicidade e sofrimento.Por isso os monges afirmam "Salve, ó Ser Intimo e Superior no Homem!"



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