Mar sem fim (Amyr Klink, 2000)“Tanto mar, invés de nos separar, nos uniu. Em 141 dias de ausência, do início ao fim, o Paratii fez a sua volta e retornou a Jurumirim. A Terra é mesmo redonda. Ao longo do caminho, pensando bem, nem vento, nem ondas, nem gelo tão ruins, porque no fim, nada impediu meu veleiro de voltar inteiro à sua baía. E nada foi melhor do que voltar para descobrir, abraçando as três, que o mar da nossa casa não tem mesmo fim.
Pior do que passar frio, subindo e descendo ondas ao sul do oceano Índico, seria não ter chegado até aqui. Ou nunca ter deixado as águas quentes e confortáveis de de Parati. Mesmo que fosse apenas para descobrir o quanto elas eram quentes e confortáveis. Eu senti um estranho bem estar ao contornar gelos tão longe de casa.Hoje entendo bem o meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é, que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”."Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor.Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver"."Transformar o medo em respeito, o respeito em confiança. Descobri como é bom chegar, quando se tem paciência. E para se chegar onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso antes de mais nada querer.""O que antes me assustava ou preocupava, agora fazia pensar. Pelas janelas de onde via apenas neblina e as velas cheias, fiz passar todas as imagens que desejei ver. E as toquei. Não há mais verdadeira e pura forma de sentir lugares do que tocá-los com a quilha de um barco. Ou com os dedos. A mais simples e universal maneira de expressar carinho. O toque.""Já acordado na Antártida, ouvi ruídos que pareciam fritura. (..) Eram cristais de água doce congelada que faziam aquele som quando entravam em contato com a água salgada. O efeito visual era belíssimo. Pensei em fotografar, mas falei para mim mesmo: calma, você terá muito tempo para isso! Nos 367 dias que se seguiram, o fenômeno não se repetiu. Algumas oportunidades são únicas!""No fundo, eu parti para voltar."
Um homem precisa viajar:
Sobre Amyr Klink:Aos 22 anos, Amyr explorou de moto a América do Sul junto com um amigo. Nos anos seguintes, fez viagens por todo o Brasil.É graduado em Economia pela USP e pós-graduado em Administração pela Mackenzie. Arrumou emprego em um banco, às 3 da tarde costumava dormir escondido no banheiro. Largou tudo e passou a se dedicar às viagens. Ele diz: "Eu não conseguia gostar daquilo: uma instituição que eu não conhecia, na qual não enxergava uma alma, nem uma missão, só o lucro... Aquilo me sacudiu mais do que qualquer tempestade com ondas"Aos 29, em 84, com um barco a remo que ele mesmo ajudou a projetar, foi remando sozinho da África até Salvador-BA. A viagem é contada no livro Cem Dias entre o Céu e o Mar. Conheceu a esposa quando ela foi entrevistá-lo sobre o feito. Ao pular para o barco dele, caiu e foi sugada por uma hélice. Amyr saltou imediatamente na água e a salvou.Em 89, em um barco que ele também ajudou a projetar, foi sozinho para a Antártica (pólo Sul) onde permaneceu durante 1 ano. Assim que o mar à volta do seu barco descongelou, em vez de voltar, simplesmente decidiu (do nada!) ir ao Ártico (pólo Norte), para só então voltar ao Brasil. A viagem é contada no livro Paratii: Entre Dois Pólos.Em 98, deu a volta ao mundo pela rota mais difícil, circunavegando a Antártica e uma expedição tripulada em um outro barco que também ajudou a projetar. A viagem é contada no livro Mar Sem Fim. Já enfrentou uma semana de ondas de 30 metros, foi mais de 15 vezes para a Antártica e muitas vezes para vários lugares do mundo. Também faz palestras no meio empresarial, escreve livros que figuram entre os mais vendidos e participa de projetos especiais. O que mais gosta na Antártica é a luz, diz que tudo reflete a luz e que basta uma noite de céu estrelado para se poder caminhar tranquilamente sobre o gelo.Acredito que essas viagens possibilitem dar mais valor as coisas e as pessoas, a se sentir bem consigo mesmo, a parar de perseguir bobagens, a refletir profundamente, a dominar o medo pela razão e a ver belezas incomparáveis. E eu valorizo muito isso.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
002 - mar sem fim - Amyr Klink
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